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A expressão do corpo como linguagem nos contextos social e terapeutico

Tânia Nogueira

Este texto tem como objetivo resgatar um pouco da importância da linguagem corporal no estudo das relações e na prática clínica, seja com família, casal ou individual.Pretende, ainda, mostrar o papel da sociedade na alienação do próprio corpo.

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A linguagem corporal é a base de toda e qualquer relação – é no corpo e através  dele que se dá o processo de comunicação. O corpo expressa as emoções, os afetos e esconde/revela toda a história de vida dos indivíduos. Para a abordagem sistêmica, ao se comunicar de forma verbal ou analógica (não verbal) o indivíduo está expressando a sua forma de perceber o mundo.

Alguns terapeutas, em sua prática clínica, observam os gestos, os olhares, as expressões de seus clientes, mas poucos buscam conhecer um pouco mais sobre o significado do corpo para o cliente, ou seja: como a família lida com as expressões corporais de afeto e com as emoções de seus membros? O que é permitido e o que é negado através do corpo pela família? Quais são os padrões de interação que se perpetuam através do corpo e no corpo?

Grande parte dos sintomas  que se repetem  nas famílias, que dificultam a comunicação entre casais e mesmo   nas relações em geral são sintomas que se manifestam corporalmente como doenças, disfunções da sexualidade, dificuldades em expressar afetos, etc.

Para dar ênfase à linguagem corporal é preciso falar do processo de desenvolvimento e socialização da criança. Os primeiros aprendizados da criança, tais como andar, falar e o controle dos esfíncteres são vivenciados em seu corpo. É através do corpo que ela se comunica com o meio em que vive.

O movimento da criança é na direção  do prazer, que se expressa no brincar, correr, sorrir, dar e receber afeto. Entretanto, desde cedo, ela internaliza regras, normas,  valores e preconceitos que limitam seus movimentos e a expressão dos afetos. Esse processo ocorre, inicialmente, nas relações com a família e, posteriormente, no contato com a sociedade, em geral.

Segundo Reich[1], quando a educação é predominantemente repressiva, o movimento na direção do prazer fica comprometido.  Para ele, a criança quando é proibida de brincar, de correr, de tocar seu corpo se torna insatisfeita; proibida, também, de manifestar sua insatisfação, de protestar pela liberdade perdida, a criança tem de aprender a bloquear no corpo o movimento expressivo do prazer e, também, o da conseqüente insatisfação. Tem de aprender a bloquear qualquer manifestação de emoção.

Aprende, assim.  a adaptar-se à sociedade e bem diz Habermas[2]  “Se não fosse assim (refere-se à adaptação do indivíduo à sociedade), como seria possível a forma de socialização total, a não ser com base no fato de que ela (a sociedade) não gera e nem tolera indivíduos que andam de cabeça erguida.”

Desde pequena a criança desenvolve uma atitude básica  de suprimir afeto, que é retendo o ar no peito e gerando uma tensão abdominal – a respiração profunda dos bebês em que o tórax se enche de na inspiração e esvazia na expiração vai se descaracterizando e a criança vai perdendo, também, sua motilidade ( movimentos espontâneos)e distanciando da consciência do próprio corpo. Seus movimentos se tornam estereotipados e a comunicação se dá de  forma ambígua e/ou paradoxal.

À medida que a criança não mais respira de forma profunda, não se movimenta espontaneamente, não expressa seus afetos, ela se arma contra o outro e surgem,mais cedo ou mais tarde, em algum momento de sua vida,  os sintomas, que geram tanto sofrimento.

Para Reich, o sofrimento é desnecessário, é artefato produzido pelas restrições sociais, impostas à vida e à sabedoria do corpo. Segundo ele, “os indivíduos são treinados, desde a infância para serem falsamente modestos. Intencionalmente apagados e mecanicamente  obedientes, treinados para suprimir suas energias…”

O avanço tecnológico tem ampliado ainda mais o distanciamento do próprio corpo. A criança  presa ao computador,  não brinca, não corre e supervaloriza o intelecto. Segundo Reich, tudo aquilo que está impregnado no corpo, toda energia contida, toda força vital que foi deformada se transforma em couraças, em tensões crônicas. Uma saída é a busca da consciência corporal, tanto pelo terapeuta (que pode, também, não estar atento às suas manifestações corporais) quanto pelo cliente (família, casal ou individual).

Não se trata, aqui, de enfatizar o indivíduo e o corpo, enquanto mediador entre o eu e o mundo, mas em buscar soluções, considerando as possibilidades e redefinições que estão no próprio corpo.

Trata-se de um convite a terapeutas sistêmicos  e de qualquer outra abordagem,  a prestarem bastante  atenção na linguagem corporal da família, do casal e do indivíduo e considerarem relevantes suas expressões corporais.

Referências bibliográficas:

HABERMAS, J. Para a Reconstrução do Materialismo Histórico.  São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda, 1979.

 

 

 

 

[1] Wilhelm Reich  nos anos 1920/30 desenvolveu uma nova abordagem terapêutica na qual além das intervenções verbais, de fundamentação psicanalítica, também, incluía intervenções corporais. Criou a  Vegetoterapia.

[2] Jürgen Habermas é conhecido por suas teorias sobre a razão comunicativa e a esfera pública sendo considerado como um dos mais importantes intelectuais contemporâneos.

 

 

 

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