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A relação amorosa e a separação na contemporaneidade

A relação amorosa e a separação na contemporaneidade

 Entrevista com Camila Lobato*/Psicoterapeuta sistêmica

  • Quais são os principais motivos observados na clínica contemporânea que levam o casal à separação?

Costumo dizer que a roupagem que leva os casais à separação pode ser variada.Um desinteresse por parte de um dos parceiros pelo outro, uma traição, questões financeiras, valores familiares diferentes e tantos outros. Mas atrás de todos esses temas vemos uma grande dificuldade de comunicação entre os casais e o quanto os parceiros projetam seus desejos no outro, ou seja, criam expectativas em cima do parceiro como se esse passasse a ser responsável pela sua vida e pela sua felicidade. Nós temos dificuldades de nos responsabilizar pela nossa própria e bancar nossos sonhos e numa relação isso fica a mercê do outro.

  • Como a família de origem influencia o casal na escolha do cônjuge, na vida marital e na decisão de separação?

Completamente, porque é na família de origem que construímos nossos valores e crenças, é onde aprendemos tudo. O primeiro modelo de casal que temos contato são nossos pais, a influência é direta tanto na escolha do parceiro quanto na decisão de uma possibilidade de separação, pois existem famílias, por exemplo, que não dão “permissão” para a separação – casamento é um valor familiar. O casal se mantém juntos pelos filhos, por um envolvimento sexual satisfatório ou, ainda, para não ter que dividir bens materiais. Mas não é um casal funcional, não tem trocas saudáveis, mas dificilmente se separam, pois existem questões, algumas vezes inconscientes, que fazem com que eles fiquem juntos. A família tem um poder muito grande nos envolvimentos maritais.

3) É possível que casais vindos de famílias disfuncionais consigam construir uma relação saudável?

É difícil responder essa pergunta, pois posso me retornar generalista, mas eu acredito no ser humano, na mudança e na ampliação da consciência. Quando o individuo quer buscar e quer transformar muitos desdobramentos são possíveis, além disso, hoje em dia, a psicologia, também, estuda sobre a resiliência; existem casos que a pessoa passou por tudo quanto é sofrimento, tudo quanto é coisa ruim na família, abandono de pai e mãe, seja físico ou psicológico, mas esse individuo tira forças sabe-se la de onde e consegue ter um desdobramento na vida. Isso é o que chamamos de resiliência, a pessoa encontra forças, encontra várias alternativas que para a gente que olha de fora seria algo inimaginável.

Assim, respondendo a pergunta inicial, então é possível, mas, o prognóstico não é bom, quando digo isso é porque o casal já vem de uma família disfuncional, em que tem um modelo de casal pouco saudável. Esse casal poderá se manter juntos para o resto da vida. Poderá ser uma relação com muitas brigas e sofrimento, mas eles se nutrem com isso. Parece estranho dizer isso, mas é a pura verdade, é o tipo de relação que eles dão conta. Dessa forma, o que eu pontuo é que é muito difícil um casal que vem de famílias disfuncionais construir uma relação saudável, mas, não é impossível, porque quando falamos em ser humano e famílias  não existe sempre nem nunca.

  • Quais são as principais crises que ocorrem em uma relação?

As crises estão muito vinculadas àquelas crises ou mudanças de ciclos, tanto de ciclo vida individual quanto familiar ou por acontecimentos imprevisíveis, exemplos, uma traição, perda de um trabalho por parte de um dos cônjuges, morte de pessoas próximas ou tantos outros.  Posso exemplificar as crises que fazem parte do ciclo de vida familiar como a chegada do primeiro filho ou a entrada do filho na adolescência. Tanto essas que são previsíveis quanto as citadas acima como imprevisíveis demandam uma renegociação entre o casal, estabelecimento de novos combinados, às vezes, mudanças de funções e quando isso não acontece grandes problemas poderão surgir.

  • As relações estão cada vez mais superficiais e descartáveis. A que se deve este fato?

Tem um livro que fala sobre isso chamado “Amor Liquido” do Bauman que gosto muito e o autor fala muito sobre essa temática. Acredito que essa superficialidade e esses relacionamentos descartáveis estão relacionados com o momento que vivemos, em que acreditamos que podemos tudo, acreditamos que existe uma felicidade extrema,  prazer absoluto e uma perfeição. Começamos a buscar e acreditar nisso e assim nos tornamos cada vez mais intolerantes quando as coisas fogem daquilo que foi imaginado. Estamos intolerantes com o outro e com a gente mesmo, não aceitamos nossas limitações e imperfeições, muito menos a dos outros. Assim se eu não gosto de algo no outro eu não converso, eu termino a relação. Se ele não fez da forma que eu queria, não serve mais. Até o vocabulário que estamos usando para referir as relações são os que usamos para os objetos. É o que eu disse no inicio da entrevista, criamos muitas expectativas em tudo (não falo que não podemos ter expectativas, a questão é como temos), na verdade, no outro – espero que o outro me dê isso, se ele não me der eu termino. Vou buscar outra relação. Perdemos de vista que temos que buscar dentro da gente aquilo que precisamos e que o outro irá fazer parte disso, será um facilitador nessa busca, não o responsável.

 

  • Como é feito o contrato amoroso, como ocorre a quebra e como é possível “negociar” esse contrato com o casal?

O contrato amoroso é feito a partir das nossas primeiras relações parentais – as relações que tivemos com nossos pais vão influenciar diretamente na escolha do cônjuge. Já a quebra do contrato começa a acontecer quando se começam as culpas e as desculpas – isso implicitamente. Como pontuei, também, no inicio da entrevista sempre terá algo explicito, que são as queixas que chegam em nossos consultório, mas nós profissionais não podemos ficar presos só a isso, pois sempre terá algo implícito que será muito crucial para entender a dinâmica de qualquer casal, tanto para o contrato amoroso quanto para a quebra deste.

As questões de projeções e expectativas que já disse e as dificuldades na comunicação, que é saber falar e escutar envolvem muito a quebra de contrato. Um ter que adivinhar o que o outro quer, a não aceitação das diferenças, um ou outro não saber se colocar nessa conversa acaba adoecendo a relação.

  • Quais são os aspectos mais importantes, referentes aos relacionamentos, que devem ser observados durante a terapia sistêmica?

Observar como o casal se comunica e ajudá-los a refletir sobre seu padrão de comunicação. Avaliar com eles os momentos que ficam juntos, o que fazem juntos. Gosto muito de perguntar sobre aquilo que aproxima eles e o que distancia eles. Outro aspecto é não perder de vista o contrato da relação( como se deu o inicio, o que viviam naquela época, teve participação de familiares…). Nós, terapeutas de casal, temos que  ficar atentos sobre o que o casal nos pede desde o inicio e ter cuidado com essa escuta, pois muitas vezes eles estão lá para procurar um aliado e nos falar o tanto que o outro é errado. O que de verdade eles buscam com a terapia?  O que cada um faz para ser interessante para o outro, como eles negociam diante dos problemas, como eles lidam com as diferenças, como é a relação de cada um com a família de origem – são todos  pontos que são importantes observar na terapia de casal. A postura de imparcialidade do terapeuta é primordial na hora de abordar um casal.

Camila Lobato /Psicoterapeuta Sistêmica em Belo Horizonte. Atende família, casal e individual. Sócia-Fundadora da equipe PERCURSO e Psicóloga do NASS (Núcleo de Atendimento Social Sistêmico).

Telefone de contato: 9 99559637

  • Esta entrevista foi concedida a alunos do 8o. período do curso de Psicologia, como parte de um trabalho acadêmico da disciplina Intervenções em abordagem Sistêmica da Universidade FUMEC.

 

 

 

 



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