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A relação entre Constelação familiar e a Terapia Sistêmica: Entrevista com Lucia Helena Nassif

ENTREVISTA com Lucia Helena Nassif – Psicoterapeuta de família/casal e individual

“MINHA FELICIDADE É PLENA QUANDO TODOS QUE FAZEM PARTE DA MINHA FAMÍLIA TÊM UM LUGAR EM MEU CORAÇÃO”. BERT HELLINGER

  • VOCÊ TRABALHA HÁ MUITOS ANOS COM A ABORDAGEM SISTÊMICA. PORQUE  ESCOLHEU A ABORDAGEM SISTÊMICA?

Meu primeiro contato com a abordagem sistêmica aconteceu há 30 anos. Vinha de uma formação em psicoterapia psicanalítica e participava de um grupo de estudos coordenado por Elizabeth Lins Clark e Rosemberg Fonseca. Nesta época, foi fundada uma clínica social onde realizávamos atendimentos psicoterápicos, ao mesmo tempo em que participávamos de reuniões para estudos teóricos e práticos. Exatamente neste período ampliamos o contato com profissionais que nos introduziram na visão sistêmica.

A grande reviravolta instalada no grupo se deu a partir da percepção e contato com o novo paradigma. De uma visão extremamente intrapsíquica, determinista e interpretativa para uma visão de contexto, de relatividade, de complexidade dos sistemas abertos e da grande importância das inter-relações entre os membros destes. O olhar passou da observação do indivíduo e seu funcionamento intrapsíquico para o funcionamento dos sistemas em que ele está inserido.

Fez-se urgente compreender o indivíduo dentro dos padrões de funcionamento de seu sistema familiar, os papéis e as interconexões estabelecidas entre eles, as crenças arraigadas que mantinham as regras do que era permitido, proibido, negado e exigido pelo sistema. E principalmente o novo lugar do sintoma, tanto na compreensão da família quanto da importância para o diagnóstico e processo de mudança na psicoterapia.  O sintoma passa a representar um verdadeiro mensageiro, paradoxal, na medida em que mantém a homeostase do sistema, inspirado na lealdade familiar ao mesmo tempo em que representa um emergente da família em busca de mudança no sistema. Assim, termos como ‘ bode expiatório’ e ‘paciente identificado’, deram lugar a emergente familiar’.

As mudanças de mentalidade e do modo de ver a realidade passaram a exigir mudanças na forma de atuar do terapeuta e mais e mais se ampliaram  dos atendimentos do âmbito individual para casal e família.

Minha escolha foi sendo realizada aos poucos, na medida em que a nova visão avançava e o velho paradigma ia perdendo sua força de verdade única e absoluta.

Aceitar e vivenciar a extrema complexidade das relações humanas trouxeram sem sombra de dúvida uma mudança definitiva e irreversível na minha forma não só de trabalhar em psicoterapia quanto na minha forma de viver. Derrubei vários mitos tais como os da estabilidade, objetividade e simplificação.

Maior presença nas sessões terapêuticas, melhor escuta às premissas dos clientes e suas relações, aos padrões limitantes aprendidos na família. O sintoma como caminho e o desafio de integrar a necessidade do indivíduo em se manter leal à família e ao mesmo tempo sua especial tarefa em se responsabilizar por suas escolhas e decisões atuais, em conciliar passado, presente e futuro. Além disto, a abertura para aprender com o cliente, o verdadeiro conhecedor de si mesmo. Sigo assim, até hoje, acompanhando as mudanças que ocorrem no mundo e consequentemente na própria abordagem sistêmica, me surpreendendo sempre!!!

 

  • RECENTEMENTE V. FEZ UMA FORMAÇÃO EM CONSTELAÇÃO FAMILIAR. O QUE TE LEVOU A BUSCAR ESTA NOVA ABORDAGEM?

Meu profundo interesse no conhecimento do ser humano em suas várias dimensões, me impulsionou a buscar novos recursos para ampliar este conhecimento e abrir esta nova porta.

Entretanto, entendo a constelação familiar, não como uma nova abordagem psicoterápica, mas sim como um recurso, uma nova ferramenta para compreender melhor os emaranhamentos familiares e a identificação d o indivíduo com algum membro de seu sistema familiar incluindo várias gerações passadas, trazendo uma desordem ocorrida nos sistemas familiares anteriores e criando sintomas paralisantes na sua vida atual.

Meu contato inicial com a constelação familiar se deu por volta do ano 2000, quando participei de um workshop com o próprio fundador do método das constelações familiares, Bert Hellinger. Com formação em filosofia, teologia e pedagogia, trabalhou durante 16 anos como membro de uma ordem missionária católica entre os zulus na África do Sul.

Impressionou-me sua extrema sensibilidade para criar um ambiente de profundo respeito às dores dos seres humanos, à sabedoria adquirida para identificar os mais inusitados motivos dos emaranhamentos ao que os indivíduos e casais estavam vinculados que os levariam ao bloqueio no fluxo do amor. Sempre direto e objetivo, pouco considerava as muitas informações que os clientes queriam lhe passar sobre sua família. A inspiração para iniciar a leitura de seus livros me levou a mergulhar nestas novas ideias.

Alguns anos mais tarde, tive a oportunidade de realizar minha própria formação e treinamento em constelação familiar, anos 2014 e 2015, com Solange Bertão, consultora em constelação desde 2004 em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Portugal. Certificada em constelação familiar- abordagem sistêmica de Bert Hellinger (iag-int. arbeits. system. losungen b. hellinger, germany), Hellinger Sciencia-moving with the spirit-mind-2010- Argentina. Sócia fundadora e membro da ABC- SISTEMAS (Associação Brasileira de Constelação Sistêmica).

Compreender que os padrões repetitivos de um indivíduo podem trazer à luz a lealdade que o mantém preso às gerações passadas de sua família e o impedem de sair deste círculo incapacitante ao mesmo tempo possibilitando a sua libertação, me fizeram dar mais importância às ordens de amor existentes em toda família.

  • QUAL A RELAÇÃO ENTRE A TERAPIA SISTÊMICA E A CONSTELAÇÃO FAMILIAR?

Quais são as diferenças essenciais?

Como já foi dito na resposta anterior, a constelação familiar não é uma nova abordagem em psicoterapia, mas um recurso, que inclui uma única intervenção em grupo ou individual. A partir de uma questão objetiva trazida pelo cliente, uma dificuldade, um sintoma atual.  Utiliza-se de uma visão fenomenológica, do conhecimento dos campos de energia, para localizar tal como um GPS, a conexão do indivíduo com um referido membro do passado familiar, incluindo várias gerações.

A partir daí o cliente pode ter uma compreensão melhor, maior clareza e maior abertura para sair do padrão repetitivo de relacionamento e comportamento escravizante.

No entanto, na minha visão, é a partir do processo psicoterápico associado a esta intervenção, que é possível que as mudanças se materializem e o fluxo do amor pode ser restabelecido.

A associação da constelação familiar com a psicoterapia sistêmica só é possível porque ambas dão destaque especial ao contexto familiar e à influência dos antepassados na forma de viver atual do indivíduo. Os princípios sistêmicos seguem sendo os mesmos, sair da busca do culpado, do julgamento de certo e errado para olhar as simetrias ocultas do amor.

Ser capaz de olhar para sua família com gratidão e respeito para então se virar para o presente e cuidar de sua vida da melhor forma possível e errando menos.

 

  • MUDOU A SUA FORMA DE TRABALHAR A PARTIR DOS CONHECIMENTOS ADQUIRIDOS SOBRE A CONSTELAÇÃO FAMILIAR?

Com toda certeza. Através da constatação de que a história familiar, como nossa matriz original, segue influenciando os membros do sistema por muitas gerações e que os tornam mais próximos dos elos de amor que os mantém conectados, me tornei mais capaz de reconhecer a força do trabalho mítico em Psicoterapia. Além da confirmação de que nenhum sistema aceita desrespeito, por causar profunda desordem no sistema, alcançando várias gerações subsequentes. Fica a cargo da nova geração encontrar uma forma de restabelecer novamente a ordem, do que é justo e bom para todos.

Porém a mais preciosa contribuição de Hellinger para meu trabalho foi a constatação das três ordens do amor, elaboradas por ele:

  • Reconhecer a importância do sentimento de pertencimento ao grupo familiar para a saúde emocional me auxilia no maior cuidado e respeito ao tocar nas raivas, mágoas, ciúmes e determinados sintomas ou doenças, drogadição, perversões, etc. Uma vez que escondem uma profunda lealdade à família, apesar de, `primeira vista, parecer oposição. A gravidade da exclusão de um membro do sistema cria uma desordem que alcança várias gerações posteriores
  • A segunda ordem do amor, o respeito à hierarquia, reconhecendo quem vem antes e quem vem depois lançou muita luz ao meu trabalho com casais e com famílias, aonde muitas vezes os filhos vem primeiro que os pais, por exemplo, muito frequente nos dias atuais, causando uma nociva desordem no sistema e a perda da autoridade dos pais.
  • A terceira ordem do amor, que é o equilíbrio entre o dar e receber leva a cair por terra muitos mitos em relação a casais por exemplo, quando um dá mais e o outro recebe mais, quem dá mais tende a se afastar e quem recebe mais tende a se sentir credor, podendo levar ao rompimento da relação.

Assim, a contribuição dos conhecimentos adquiridos pela constelação familiar tem me ajudado a acelerar os saltos quânticos que acontecem na psicoterapia para o processo de mudança, considerando que os bons passos dados pela família  chegam até nós como força e os passos equivocados, uma oportunidade para aprender. Ou seja, oportunidade para repensarmos os novos emaranhamentos que estamos criando para as novas gerações, o que nos torna responsáveis por nossas escolhas e a vida que decidimos ter.

  • QUAL A DIFERENÇA ENTRE TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA E A CONSTELAÇÃO FAMILIAR?

A constelação familiar acontece a partir da constelação de um único membro e seu sintoma ou questão na tentativa de localizar, como se fosse um GPS, com qual pessoa da família, nas gerações passadas, este membro está identificado.

A psicoterapia familiar sistêmica é um processo terapêutico onde se busca essencialmente intervir diretamente nas relações familiares, para identificar como o sintoma de um membro está conectado com o funcionamento da família como um todo. A partir de então, ajudar a família a retirar a depositação maciça feita em cima de um único membro, o emergente familiar, liberando toda a família para uma nova forma de relacionamento mais cooperativa, compartilhada e inclusiva e amorosa.

Evidente que assim como na psicoterapia sistêmica, a psicoterapia familiar sistêmica, tornou-se mais rica ao utilizar das preciosas descobertas de Hellinger sobre as ordens do amor que governam os sistemas familiares, auxiliando resgatar a força amorosa dos sistemas e SEUS SINTOMAS.

 

  • GOSTARIA DE ACRESCENTAR ALGO QUE CONSIDERA IMPORTANTE?
  • – Com os anos de vida e trabalho passei a olhar mais para a ética nas relações de um modo geral e claro na relação terapêutica.

Minha reserva a este novo recurso é com relação ao uso, muitas vezes indevido, onde profissionais de qualquer área profissional, inclusive da psicologia, terminam qualquer curso em constelação e sem nenhum aprofundamento e vivência, se lançam à constelação familiar, o que pode levar, pela falta de preparo e ética, a consequências nocivas para a vida do cliente que demandou, saindo estes mais desorientadas do grupo de constelação que antes.

  • O peso exagerado que a constelação familiar dá ao passado, muitas vezes, não dando o devido valor aos passos atuais no presente.
  • A tendência a facilitar as justificativas dados pelo cliente, para manter seu comportamento, atitudes e relações disfuncionais no seu presente, se redimindo da responsabilidade de assumir suas distorções e erros. A depositação da responsabilidade se desloca para os acontecimentos passados.

 

“ACEITAR OS PAIS TEM UM EFEITO ESTRANHO: A SEPARAÇÃO.

NÃO SE TRATA DE UM MAL, DE ALGO QUE ME COMPLETA E APERFEIÇOA O RELACIONAMENTO COM ELES.

ACEITAR OS PAIS SIGNIFICA: RECONHEÇO TUDO O QUE ELES ME DERAM.

FOI MUITO E FOI O SUFICIENTE.

O QUE MAIS PRECISAR GANHAREI POR MIM MESMA OU DE OUTROS”.

BERT HELLINGER

 

Sobre a entervistada

Lúcia Helena Baêta Nassif Aroeira/Psicoterapeuta sistêmica individual, casal e família/Especializada em Psicoterapia familiar e casal/Formadora e supervisora em Psicoterapia Sistêmica

Contatos: (031) 32277410/992050754

Consultório: Rua Alagoas,1270/204- Funcionários

 

 

 



2 respostas para “A relação entre Constelação familiar e a Terapia Sistêmica: Entrevista com Lucia Helena Nassif”

  1. Parabéns pelo artigo. Se precisar de ajuda para aumentar suas vendas, fale com a gente!

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