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Abordagem Sistêmica: Uma Escolha

          Abordagem Sistêmica: Uma Escolha

  Entrevista com as psicólogas: Ceide Lemos de Souza Lima e Paula Viana Vaz, terapeutas de família, casal e individual dentro da Abordagem Sistêmica.

   Ficamos muito satisfeitas com o convite da prof. Tânia Nogueira para esta   entrevista sobre Terapia Sistêmica, por ser uma oportunidade de explicitarmos alguns aspectos sobre esta abordagem que muito tem se desenvolvido ultimamente tanto no que diz respeito a estudo como demanda.

 Escolhemos dar esta entrevista em dupla para apresentarmos um instrumento de trabalho na abordagem sistêmica que é a coterapia, usada, por exemplo, nos atendimentos de casais e famílias. Este tipo de atendimento baseia-se em premissas que desenvolveremos no decorrer da entrevista. Ele oferece possibilidade de maior qualidade nos atendimentos, sobretudo quanto aos seguintes aspectos: a presença de mais de um terapeuta favorece uma visão mais ampla do sistema, mais imparcialidade dos terapeutas, maior riqueza e diversificação tanto na construção de hipóteses diagnósticas como nas intervenções para o objetivo comum, que é a mudança do sistema.

  • Há quanto tempo trabalham com a abordagem sistêmica?

Começamos a trabalhar com esta abordagem a partir de uma formação que fizemos em Terapia Sistêmica, nos meados da década de 90, ministrada na EQUIPSIS (Equipe Sistêmica em Belo Horizonte), por Maria José Esteves, Juliana Gontijo Aun e Sônia Coelho.

  • Por que vocês escolheram esta abordagem?

   A partir de alguns questionamentos, para os quais não tínhamos respostas satisfatórias em nossa prática exercida até então, chamou-nos a atenção certos aspectos da Terapia Sistêmica, como por exemplo: a mudança de foco do indivíduo para o sistema e a existência de padrões relacionais que constituíam a disfunção da família ou do casal, mais do que as psicopatologias do paciente individualmente (PI – paciente identificado).

   Não era simplesmente o indivíduo que estava doente, mas sim o sistema que se encontrava disfuncional. E neste sentido a mudança a acontecer consistia numa coconstrução a ser feita envolvendo a corresponsabilidade de todos os membros do sistema e não apenas daquele rotulado como doente (distribuição do sintoma de um “culpado” para todo o sistema).

  Outro aspecto utilizado na prática era enfatizar a psicopatologia, favorecendo a rotulação do paciente. Já na Terapia Sistêmica o foco neste caso é colocado no levantamento de hipóteses diagnósticas sobre os padrões dos jogos relacionais e das disfunções no sistema (inclusive repetidos em diferentes gerações).

  • Vocês poderiam explicar, para quem não conhece, quais são os pressupostos ou premissas básicas da Terapia Sistêmica?

   Consideramos uma tarefa difícil colocarmos em espaço tão restrito toda a complexidade da terapia sistêmica, mas vamos nos ater ao acontecimento básico que foi a mudança de paradigma da ciência moderna ou tradicional para a ciência contemporânea ou novo paradigmática, que gerou anteriormente à Terapia Sistêmica o Pensamento Sistêmico: uma nova visão de mundo embasada em uma verdadeira revolução científica ou mudança de paradigma.

    Maria José Esteves, em seu livro Pensamento Sistêmico – O novo Paradigma da Ciência (2002), distingue três dimensões para descrever os paradigmas:

Paradigma da ciência tradicional   X      Paradigma da ciência novo paradigmática

Simplicidade                                              – Complexidade

(Relações causais lineares)                      (relações causais recursivas)

– Estabilidade                                              – Instabilidade

Determinação – previsibilidade               Indeterminação – imprevisibilidade

Reversibilidade – controlabilidade          Irreversibilidade – incontrolabilidade

– Objetividade                                            – Inter-subjetividade

Subjetividade entre parênteses             objetividade entre parênteses

Universo                                                    -Multi-versa

  • Qual é o diferencial da terapia sistêmica com relação às outras abordagens?

    Muitos aspectos já foram mencionados anteriormente, mas gostaríamos de reforçar os seguintes pontos: quanto ao conceito de complexidade entende-se que as disfunções do sistema (desequilíbrio, desordem, desarmonia) não podem ser lidas simplesmente como resultado de causa e efeito, mas como construção pela interferência de diversas variáveis (físicas, sociais, emocionais, culturais, etc., e de todos os membros do sistema). Além disso, os acontecimentos devem ser contextualizados e isto significa que existe um dinamismo constante e, não se tratando então de uma visão pontual e estática, mas do fenômeno constante do vir a ser (o paciente não é, por exemplo, preguiçoso, mas está preguiçoso).

  No que concerne à intersubjetividade, decorre que a neutralidade do terapeuta é utópica, pois não existe uma realidade independente do observador e sim a construção de um consenso, a partir dos próprios recursos do sistema: crenças, valores, projetos, etc. Uma família por exemplo, que construiu uma disfunção, ela própria constrói a solução a partir de seus próprios recursos (coconstrução).

  • Nas últimas décadas a busca pela Terapia Sistêmica aumentou muito. Para vocês, quais são os fatores que possibilitaram este desenvolvimento?

Vamos elencar alguns aspectos:

  • A diversidade de abordagens ou modelos dentro da Terapia Sistêmica, tais como:
  1. a) Historicamente orientados ou Inter geracionais, representados por M. Bowen.
  2. b) Estruturais – S. Minuchin
  3. c) Estratégicos – J. Haley
  4. d) Interacionais comunicacionais – V. Satir

    A existência dessa diversidade de modelos possibilita focar e trabalhar mais diretamente a demanda, a queixa do sistema. Com uma família que chega com a queixa de um filho opositor a um dos genitores, pode-se trabalhar a estrutura familiar ressignificando o papel dos genitores e também deste filho. Neste caso através da abordagem estruturalista, são feitas intervenções que visam a releitura e redefinição da disfunção, usando os recursos de saúde da própria família.

  • Por se tratar de uma terapia breve, apresenta maior praticidade, ficando mais adequada aos tempos atuais onde o ritmo da vida moderna é mais acelerado.
  • A postura e características do terapeuta sistêmico: coconstrutor, parte do sistema, desmitificando a necessidade de distanciamento, neutralidade e objetividade. Ele é um elemento a mais do sistema, com papel especial: construir intervenções terapêuticas, promover a mudança do sistema, a partir da própria emoção, experiências pessoais e profissionais, do estudo e técnicas e de sua capacidade relacional (empatia, humor, criatividade). Segundo Vasconcelos (1995) “tanto a habilidade técnica quanto o carisma do terapeuta são elementos que se complementam na promoção do trabalho terapêutico”. Não se trata então de uma intimidade pessoal, confusão de papéis, estabelecimento de aliança com um determinado membro do sistema. Como afirma Maturana (1992) “A emoção constitui o fundamento de qualquer atividade” e “A razão dá a forma ao fazer que o emocionar decide”.
  • Se vocês fossem usar uma metáfora, como descreveriam o terapeuta sistêmico?

Como o sol no sistema solar.

O sistema solar é constituído pelo sol e corpos celestes (planetas, luas, cometas, asteroides e outros).

  O sol é a única estrela do sistema, o que, na Terapia Sistêmica trata-se do papel especial do terapeuta como profissional, intervencionista, um dos responsáveis pelo funcionamento harmonioso do sistema, onde todos constroem a dinâmica, todos são responsáveis pelo funcionamento saudável do sistema. A luz brilhante emitida pelo sol reflete a importância do terapeuta basear sua atuação na integração de várias dimensões: experiências pessoais, características individuais e profissionais, domínio de técnicas, enfim, seu brilho excepcional consiste em usar emoção e razão na sua prática profissional.

  • Vocês gostariam de acrescentar alguma coisa sobre seu trabalho e/ou sobre a Terapia Sistêmica?

    Gostaríamos de reforçar a ideia de que a presença de mais de um terapeuta, no contexto da coterapia, enriquece, pois é um acréscimo de mais uma visão. E também a atuação dos coterapeutas pode servir de modelo, ao mostrar que os vários membros do sistema podem ter, cada um, sua visão diferenciada de um mesmo aspecto e, assim mesmo tratar-se de um sistema funcional.

   E mais ainda: a Terapia Sistêmica surge a partir de uma mudança: uma nova visão de mundo. E, nas palavras de Rifkin, “O aspecto mais interessante de visão do mundo de uma sociedade é que os indivíduos que aderem a ela, na maior parte são inconscientes de como ela afeta o modo deles fazerem as coisas e perceberem a realidade em torno deles. Uma visão de mundo funciona, na medida em que é tão internalizada, desde a infância, que permanece não questionada (…). Somos tão presos no nosso paradigma, que todos os outros modos de organizar nossos pensamentos parecem fatalmente inaceitáveis. ”

 

Consultório de Paula Viana Vaz e Ceide Lemos de Souza Lima: Rua Ouro Fino 395/conjunto 102 Tel. 32216001

Ceide Lemos: 991264840

 

 

 

 

 

 

 



2 respostas para “Abordagem Sistêmica: Uma Escolha”

  1. Gostaria de parabenizar a professora Tânia Nogueira e às psicólogas Paula e Cleide pelo excelente texto e oportunidade em disseminar e esclarecer o quão importante é ter uma visão sistêmica no trabalho terapêutico. Enxergar o indivíduo para além de seu próprio ser, em seu sistema, é fundamental para trabalhar as disfunções que permeiam as suas relações e estabelecem seus padrões de comportamento, co-construindo, através da experiência, relações saudáveis.
    Vanessa Almeida
    Psicóloga clínica e hospitalar

  2. ceide lemos de souza lima disse:

    Que alegria ,VANESSA, tê-la como companheira na prática e difusão da Abordagem Sistêmica !
    Contamos sempre com sua colaboração

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