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Costurando o Tempo

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Morgana Valente/ psicóloga e artista plástica

 

Entre caixas guardadas há tanto tempo, lá estavam os fragmentos de diversos anos vividos, registros da história de uma mulher, de seus filhos e seus anseios. A velha tesoura, a fita métrica, a máquina de costura e os diversos desejos inconfessáveis na época, imaginados a cada corte, a cada medida, a cada ponto. O desejo de expandir as potencialidades e as possibilidades, o desejo de romper as fronteiras subjetivas que a separavam do seu direito de ser e crescer.

O horizonte era pequeno, entrecortado por diversas montanhas que tornavam rápidos o nascer e o pôr do sol.  Lá no fundo daquele vale, aquela mulher não sabia o que mais a sufocava, se era a ausência regular dos ventos, própria do clima quente e úmido ou se era sua real intolerância a uma vida sem perspectivas.

Como animais que instintivamente buscam o alimento para saciar a fome e se esgueiram pelas rochas e matas se dissimulando dos predadores, aquela mulher levava seus dias construindo pequenos sonhos possíveis dentro de sua realidade limitada. Em seu pequeno mundo cabia,pouco mais que preparar a comida, lavar, alimentar e embalar seus filhos, contando as horas a cada dia sempre à espera… À espera que eles crescessem, à espera que ela também crescesse…

A mulher não sabia dizer por quantas horas tocou sua máquina a coser tecidos, a costurar o tempo, aprisionando seus anseios em cada botão. Ela sonhava com horizontes mais belos, mas não sabia como conseguiria, um dia, ir embora daquele vale, caminhando com as próprias pernas, puxando os filhos pelas mãos e carregando no coração apenas um punhado de esperança. Ela só sabia que queria ir e apenas saber disso era muito pouco.

Enquanto o vale não se abria, ela sabia que precisava e merecia tornar os dias mais doces. Para isso ela cobria o chão com a manta grossa, colocava seus filhos sobre ela e espalhava seus brinquedos como num banquete diário de singela alegria. E tocava a sua máquina, cantando para eles, cantando com eles modinhas infantis, que falavam de aranhas, paredes e chuvas fortes.

E como uma lei misteriosa que rege plantas e bichos e os faz crescer e cumprir seus ciclos, enquanto os filhos cresciam e a máquina cantarolava, a mulher também crescia. A cada inverno ela renovava seus vestidos de sonhos sempre mais claros e belos. Quanto mais se renovava, mais forte ela se tornava até que, um dia, ela se flagrou olhando para seus filhos crescidos o suficiente para caminharem com ela vale afora.

Então, a mulher e seus filhos partiram sem olhar para trás. O horizonte foi se abrindo, seus corações foram se abrindo, seus sonhos foram sorrindo e uma grande transformação foi iniciada.

Durante muitos anos, a tesoura, a fita métrica e a máquina de costura ficaram guardados em caixas no fundo de um armário. Foi o tempo necessário para a mulher se empenhar em cada sonho seu para lhes dar vida. Ela identificou suas prioridades, investiu e trabalhou nelas. E cuidou para que os filhos também se construíssem em seus próprios desejos.

Recentemente, essa mulher em seu momento de vida mais feliz e produtivo, agora estudiosa e profissional atuante, exatamente, naquilo que sempre desejou fazer, se viu no período de férias do seu trabalho e sentiu saudades de sua tesoura, da fita métrica e da máquina de costura. A atividade que, outrora, foi seu meio de ganhar o pão se tornou um dos seus hobbys prediletos.

Ao costurar um vestido para a filha, materializando amor, essa mulher viu em retrospectiva cada ano daquele tempo em que não vislumbrava perspectivas. A cada ponto da máquina recapitulou cada passo seu na busca dos seus mais belos projetos e se viu, subitamente, inundada por uma alegria jamais sentida. Seu corpo era só repercussão…

Quando terminou a veste da filha, ela experimentou a plenitude do fruto colhido, silenciosamente, tocada pelo prazer de ser quem é, dignamente,  vestida de si mesma.

 

Morgana Valente Abeilice – CRP 04/43267

Fone: 31 99928 5848/www.institutomorganavalente.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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