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MINHA MÃE TEM ALZHEIMER – aspectos psicológicos do mal de Alzheimer

Tânia Nogueira/Psicóloga

A primeira vez que tive contato com alguém com o mal de Alzheimer, foi no ano 2000. Em um aeroporto, uma mulher muito alinhada andava em varias direções, quase que sem rumo, e falava a mesma frase repetidamente. A mulher chamava atenção, mas o que mais me impressionou foi a expressão de vergonha de sua nora diante daquela situação.

Naquele momento, jamais poderia imaginar que alguém da minha família teria o mesmo mal! A doença  da minha mãe começou , como em qualquer outro caso, silenciosa. De repente, sem que nos déssemos conta, meu pai estava levando, esperando e trazendo minha mãe das aulas de Yoga. Aos poucos ela foi perdendo o interesse por essas aulas e deixou de ir. Fomos percebendo que ela não se lembrava de algumas pessoas ou mesmo de alguns fatos vividos por ela e/ou por nossa família.

Aí veio o diagnóstico: mal de alzheimer. Minha mãe passou a tomar remédios e acho, que, como foi  diagnosticada no início do processo, os sintomas atenuaram-se, embora, haja uma imprevisibilidade. Como se manifestam: ora ela reconhece as pessoas e sabe quem são em sua vida – filhos, marido, netos e ora, não as reconhece. Aí, então, pergunta repetidamente quem é essa pessoa. Mas, o interessante é que ela não esquece o nome completo de seu marido, filhos e filhas.

Em relação à família, um dos episódios mais tristes foi quando ela se assustou com meu irmão caçula,  entrando em casa. Ele ficou arrasado por não ter sido reconhecido. Onde estava a mãe que tanto o amava?! Comigo, o mais intrigante, foi quando eu cheguei a casa dela e ela me perguntou: Você é a Teresa? (Quem é Teresa?!).

Uma situação vivida pela família e incômoda para todos, foi em um sitio, quando  preparávamos para dormir, não teve ninguém que a fizesse ficar. Já tarde da noite, meu sobrinho a (e meu pai, também) trouxe de volta para casa. Fiquei surpresa, pois dois anos antes, ela fizera uma viagem e ficou bem, mesmo estando fora de casa.

Com o avanço da doença, foi necessário que alguém ficasse com ela em casa – já não conseguia fazer comida e tinha o risco dela sair sozinha e ficar perdida. Foi preciso, e até hoje é assim, retirar as chaves do portão e escondê-las. Minha prima, que morou com a família por doze anos, se prontificou a ficar com a tia três vezes por semana. Aos poucos minha irmã foi assumindo o posto e, hoje, é ela quem é responsável pela casa, pelos medicamentos. Ocupou o lugar do meu pai, já envelhecido e cansado e de uma cuidadora. A ideia é que minha mãe não aceitará, jamais, alguém de fora.

Eu não vivo o dia a dia com ela, mas sei que é muito cansativo, pois as perguntas repetidas e o ter que tomar conta são desgastantes. O que eu percebo: é preciso muita paciência para lidar com quem tem Alzheimer, não contrariá-lo e brincar um pouco. Não é o caso de ter vergonha ou ficar constrangido no social ou no espaço público.

Alzheimer é uma doença que vem silenciosa e que vai se agravando gradativamente. Diante desse quadro, o meu temor é de ver a minha mãe sofrendo. Ela, que sempre foi autônoma e independente, fazendo o que bem queria, não parece sofrer diante da quase total dependência em relação a tudo, pois essa dependência não é sentida em função do esquecimento imediato das coisas e ações vividas por ela.

Entretanto, o sofrimento é visível, quando ela entra em um processo de confusão mental , sem saber onde está e o que está acontecendo com ela.  Há poucos dias, ela acordou confusa e perguntou onde estava. Diante da respostas que lhe foram dadas ela perguntou: “eu não estou morta, não?”. Depois ela disse: “eu tenho medo”. O medo da morte gera sofrimento, para o idoso de modo geral, e, provavelmente, muito mais para quem tem alzheimer – que não sabe se está vivo ou morto.

Minha mãe praticou yoga por mais de vinte anos, fez hidroginástica, lia livros com freqüência, fazia “busca palavras”. Supostamente não era para ela ter alzheimer. Quais são, então, os fatores de risco? È possível prevenir-se? Sabemos que os fatores biológicos são significativos e muito pesquisados, mas, por outro lado, os fatores psicológicos são pouco discutidos.

Neste ponto que quero levantar algumas hipóteses: penso que o alzheimer é uma forma que a pessoa encontra para dar um sim à vida, para não morrer. Esta seria uma forma equivocada de viver, ou seja, viver sem vida. Outra hipótese que levanto é da busca de cuidado, uma pessoa que se sentiu pouco cuidada na vida, encontra uma forma de receber carinho e cuidado (outro equivoco, pois nem sempre elas conseguem isto).

A literatura especializada fala em apatia, ansiedade e, em muitos casos, depressão. O que observo, em minha mãe e creio que posso generalizar, é que, além do medo de morrer, tem o medo de ficar sozinha, a busca de segurança e a acentuação de atitudes e maneiras de se comportar que sempre teve ao longo da vida. Esses aspectos são comuns para qualquer idoso. Qual seria, então, o diferencial afetivo e emocional de quem tem mal de alzheimer? Teriam características de personalidade que levam a pessoa a ter predisposição ao alzheimer?

Em fim, este depoimento e reflexões representam um alerta a filhos e netos para que fiquem atentos aos sinais de esquecimento e mudanças de hábitos de seus pais e avós. É, também, um convite a todos para refletirem sobre seu modo de viver e a lembrarem que a vida é muito curta e passa rápido demais. Afinal, o alzheimer pode chegar a qualquer momento!

 

 

 

 

 

 

 

 



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