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Os avós de hoje não são como os de antigamente

           Características, papéis e importância dos avós pós-modernos na família do terceiro milênio

Ceide Lemos Souza Lima

Paula Viana Vaz

Pensar e falar sobre avós suscita em cada um de nós lembranças, vivências pessoais que podem variar de acordo com o tempo, época ou geração, conceitos tais como de “velho”, “velhice”, intensidade de convívio, tipos de relações entre os membros da família e até de seus tipos de personalidade.

A variedade destas lembranças sobre as figuras dos avós advém sobretudo de mudanças significativas na dinâmica da existência da vida, referentes a três fatores, a considerar:  a trajetória da mulher, sua caminhada de objeto a sujeito de sua história pessoal;o desenvolvimento e o consequente surgimento de novos tipos de família; e, o contexto histórico, econômico-social de inserção dos membros da família.

E tais elementos (subsistemas) internos e externos do sistema familiar agem de maneira interligada e cada um deles influencia e é influenciado por todos os outros, caracterizando-os. Assim, acontece com os avós de cada década ou geração, suas diferentes tarefas, papéis e importância nas famílias e gerações tanto do seu tempo presente como futuro.

Assim, considerando, por um lado, a bibliografia já existente sobre o tema avós e, nossas próprias vivências e observações pessoais, perguntamo-nos: qual é o papel e a importância dos avós na família pós-moderna? Os avós de hoje são diferentes dos avós de ontem? Houve mudanças?

Inicialmente, ao pesquisar a imagem dos avós, por exemplo, relatados no artigo “Os avós que cuidam de seus netos deixam marcas em suas almas”, disponível no site Amenteé maravilhosa, percebemos que ele condiz com a perpetuação da percepção dos avós de décadas anteriores, como por exemplo, dos anos 60. Eles são vistos como “nossas memórias cheias de prazer, diversão e ternura”. Marcam o coração de seus netos como pessoas únicas, afetuosas e empáticas. São amados por eles por transmitir-lhes conhecimentos e histórias familiares, através de canções, danças, brincadeiras, jogos e contos. E também se destacam pelo carinho, paciência, atenção, presentes, por conhecer e até preparar para cada neto sua comida preferida. Ou seja, atendem tão frequentemente os desejos deles, a ponto de serem considerados por muitos como avós que deseducam, enquanto os pais procuram educar seus filhos.

Trata-se de uma visão romântica, saudosista dos avós, que corresponde a um conceito de “velho”, de “velhice” como depositários da experiência acumulada de vida, tradição, ausência de estresse, figuras frágeis, pacatas, de cabelos brancos, mais observadores que atores. Patrus Ananias (2011), descreve os avós com seu olhar de avô, nascido há décadas atrás: discretos, de amor maduro, exercendo papel “supletivo” (secundário), sem disputar o primeiro lugar, que cabe aos pais, na educação dos filhos. São também, segundo ele, responsáveis por passar valores éticos e comunitários para o exercício futuro destas crianças como cidadãos e, traça ainda a figura destes avós como aqueles que “dão corda” aos netos, não dizendo “não”, evitando brigas com eles. Portanto, acentua também o lado de doçura e afeto dos avós de tempos passados, estabelecendo uma relação calma que propicia um diálogo intenso com os netos. Ficam, então, claros o papel, a posição e importância dos avós antigos como “retaguarda afetiva” na relação familiar com seus filhos e com os próprios netos.

Caminhando no tempo e construção histórica, este cenário sofre mudanças fundamentais que levam a uma nova versão dos avós na era pós-moderna. Uma base disso é ainda o aparecimento de novos conceitos como, por exemplo, de “velho”, “velhice”. Uma campanha veiculada na internet pela Pfiser (2015) com o título de “Envelhecer sem vergonha: um novo olhar sobre o envelhecimento”, visando descobrir os ganhos e perdas no envelhecimento, entrevista homens e mulheres, entre 16 e 85 anos, perguntando: “Velho Quem?”. As entrevistas, além de concluírem que qualidade de vida não tem idade, revelam também uma nova visão e realidade quanto a “ser velho” e “envelhecer”. Aos “velhos” agora cabe também, fazer viagens, praticar esportes, sair com amigos, ler, fazer mudanças na sua vida, ter esperança no futuro e até lidar (embora com certa dificuldade) com as novas tecnologias. Envelhecer sem vergonha comporta então, fazer tudo que deseja, curtir a vida de várias formas, sem ligar para as opiniões dos outros, nem focar, sobretudo, nos desgastes do corpo e problemas de saúde. Assim, “envelhecer é só questão de idade, porque depende da pessoa”, ou seja, ser velho não significa só e obrigatoriamente ter idade avançada, mas de como a pessoa encara e vive essa etapa da vida, pois “qualidade de vida não tem idade”.

Tal mudança de concepção não constitui, é claro, uma mágica ocorrida nos últimos tempos, mas de um conjunto de transformações no processo de vida, nas relações humanas, englobando principalmente, as áreas: mulher, família e a sociedade, o que acarreta, consequentemente, uma nova postura e ação dos avós ─ também componentes do cenário da pós-modernidade.

Quanto à mulher, ela sai da confinação ao ambiente da casa, amplia seu papel além da maternidade, ganha liberdade com o advento da pílula, passa a constituir-se como indivíduo; estuda e busca sua profissionalização, maiores direitos, mais simetria na relação dentro do casamento, enfim, conquista ampliação de seus projetos de vida e reconhecimento como ser social, inclusive. Tal empoderamento da figura feminina traz mudanças radicais também na família: a educação dos filhos não mais fica na responsabilidade unicamente da mãe, que agora trabalha fora, e é também provedora, uma vez que isto constitui necessidade sua, no sentido da própria realização pessoal e/ou para o sustento da família.

Então, de família patriarcal ─ centrada na autoridade do pai, detentor de todo poder, cabeça do casal ─ desponta uma outra família, a pós-moderna, aliás, vários outros tipos de família, resultantes inclusive das separações, divórcios, recasamentos, etc.

Tanto o ambiente físico, a casa, como os papéis dos membros da família sofrem alterações e, também o relacionamento entre eles, levando em conta o forte movimento em direção à individualidade, os tipos diferentes de personalidade, o convívio de todos. A sociedade resultante desta trajetória de seus atores composta por uma nova mulher, um pai transformado, filhos criados por eles a partir de uma nova distribuição de papéis e tarefas na família, passa também por crises não só emocionais como ainda, econômico-financeira. Surgem restrições até no espaço físico: de casas cuidadas por empregadas domésticas para os pequenos apartamentos mantidos por diaristas. E o panorama de desemprego também leva muitas famílias a voltar para o seio de sua família de origem.

Com tudo isso, surge outra nova dupla: avó e o avô pós-modernos. E já não se trata mais dos velhinhos frágeis, de cabelos brancos, da avó de coque, que faz crochê e tricô e do avô a ler jornal na cadeira de balanço. Não são também (como os avós de antigamente), da linha de fogo, não ocupam o front, como os pais, mas são figuras rejuvenescidas, mais potentes, ativas, muitos até trabalham ainda, outros recasam, participam da vida social, têm mentalidade mais aberta e menos preconceito. Tudo isso compõe o seu papel e importância como avós. Exercem uma participação efetiva e imprescindível na vida cotidiana de seus filhos e netos: da retaguarda, protegem os membros do front e contribuem para a consolidação de novos terrenos e tempos futuros. ─ é o que afirma Gladis Brun (1999). E ela justifica a maior atuação destes avós da modernidade através da complexidade do cotidiano da família moderna, onde necessidades e dificuldades exigem deles um apoio muito prático. Por exemplo: na execução das tarefas diárias como transporte, refeições, dever de casa, etc., até no suprimento das carências afetivas e financeiras.

Comparando sua presença e contribuição na vida da família, os avós pós-modernos têm maior frequência e intensidade, quantidade e qualidade na participação da intimidade, dos sentimentos, problemas de todos os membros. Consequentemente, como se trata de três gerações diferentes, surgem muitos conflitos de valores, crenças, interesses e até de lealdade. Todos estes elementos pedem então, arranjos, posturas e ações dos avós, principalmente como: mantenedores e transmissores da história familiar e infância dos netos. Eles fazem um elo entre o passado, presente e futuro, através de casos familiares e mantêm valores éticos, morais e culturais. Enfim, são figuras de confiança e apego afetivo dos netos, suprindo a ausência dos pais. Contribuem no desenvolvimento intelectual, social e emocional dos netos. Destas relações Inter geracionais surge a construção de uma REDE INTERGERACIONAL DE TROCAS, onde cada subsistema dá e recebe, pratica o exercício de solidariedade. Os pais são acrescidos de apoio, de ajuda na educação dos filhos, como também em suas dificuldades e problemas individuais. E oferecem aos filhos e avós, possibilidades de enriquecimento pessoal através do convívio com uma geração diferente.

Já os netos, como vimos, ganham em afeto, conhecimento, equilíbrio emocional e ajuda prática.

E finalmente os avós, a princípio aparentemente apenas doadores, recebem presentes valiosos. Os da pós-modernidade, principalmente, no contato íntimo com outra geração, ganham em vitalidade, alegria e projetos de vida. Enriquecem-se, pois ao ensinar muito aprendem com seus netos. Tornam-se mais adaptados, têm oportunidade de viver experiências, momentos, desfrutar de prazeres, que, muitas vezes, não puderam ter quando eram pais. Absorvem mais o ritmo da vida moderna, crescem intelectual e socialmente, cuidam mais do seu físico e saúde em geral. Sendo mais requisitados e participativos, sentem-se úteis, mais valorizados e reconhecidos, o que aumenta sua autoestima.

Concluindo, a partir das informações obtidas através de alguns autores, constatamos que os avós das duas gerações focadas, tiveram, ambos, o papel de “suplentes”, situando-se na retaguarda dos pais quanto ao papel de educadores de seus filhos. A primeira geração (os avós antigos), constituiu a retaguarda afetiva, com uma atuação mais modesta, menos ativa, condizente, com o conceito de “velho” e “velhice”. Já os avós da pós-modernidade, ampliaram seu papel, contribuindo para o equilíbrio emocional dos netos, mediante toda a complexidade e mudanças que a família e a sociedade sofriam (aspectos históricos, econômicos e sociais). Trata-se então, de personagens mais rejuvenescidos e ativos, com a oportunidade de redescobrir o lado surpreendente da vida da geração mais nova e criar um elo intergeracional.

Tais informações levam-nos a afirmar que, os avós, sobretudo os contemporâneos, são parte essencial ou subsistema muito significativo na renovação dinâmica do sistema família. Criaram um elo intergeracional a partir de uma rede mantida pelo modelo de troca entre passado, presente e futuro.

É o que, na nossa visão, também declara um grande líder de nosso tempo: o Papa Francisco. Sobre a família, seus membros, papel e importância, ele afirma que não existe família perfeita e que em seu seio ninguém é descartado, mas que tanto o ancião como a criança, têm nela acolhida. Enfatiza a família do terceiro milênio como lugar de vida, cura, perdão e alegria, através do exercício do encontro, diálogo, solidariedade e transcendência.

 

Referências

ANANIAS, Patrus. Sobre corações de avós e netos. Disponível em:<http://www.revistaencontro.com.br/canal/revista/2011/09/sobre-coracoes-de-avos-e-netos.html> Acesso em: 27 de julho de 2017.

AVÓS que cuidam de seus netos deixam marcas em suas almas. Disponível em:<https://amenteemaravilhosa.com.br/avos-cuidam-netos-marca-suas-almas> Acesso em: 03 dejulho de 2017.

BRUN, Gladis. Pais, Filhos e Companhia Ilimitada. Rio de Janeiro: Record, 1999.

FERES, Elisa. A importância dos avós para pais e netos. Disponível em:<http://revistacrescer.globo.com/Familia/Rotina/noticia/2013/07/dia-dos-avos-importancia-deles-para-pais-e-netos.html> Acesso em: 6 de julho de 2017.

PFISER Brasil. Campanha Envelhecer Sem Vergonha: um novo olhar sobre o envelhecimento.Disponível em:<http://www.pfizer.com.br/noticias/Campanha-Envelhecer-Sem-Vergonha-um-novo-olhar-sobre-o-envelhecimento> Acesso em: 10 de julho de 2017.

ROMANINI, Bruna. A importância dos avós na criação dos netos.Disponível em:<htpps://bebemamae.com/desenvolvimento-do-bebe/a-importancia-dos-avos-na-criacao-dos-netos> Acesso em: 29 de junho de 2017.

 

 

 



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