logo

The Duck

 

THE DUCK

Henrique Diniz

 

Quem não conhece a estória do patinho feio, discriminado durante toda a sua infância e em luta contra o desamparo? O conto foi criado por Hans Christian Andersen, numa espécie de alegoria de uma infância difícil da qual viveu. O autor, um dinamarquês de origem humilde, passou por maus bocados, devido a sua aparência bizarra e uma sensibilidade, considerada efeminada por seus contemporâneos. [2]

Ao mesmo tempo, é um conto cujo grande valor está na consagração do amor materno, ainda que pelo lado negativo, na medida em que a história frisa a rejeição egoísta da pata. O calvário do cisne caído no ninho de patinhos, é uma metáfora com alcance em todos nós que compartilhamos uma certa dose do sentimento de rejeição e estranheza, esta que Freud alega ser ao mesmo tempo familiar (unheimlich). [3] De um lado, o laço biológico não nos oferece as garantias necessárias para sentir-se amado. Por outro, nos impulsiona na busca de um lugar no mundo.

Na trama, faltam dramas amorosos, bruxas, dragões e princesas, isto é, ela aposta numa forma de superação através de uma busca interior. [2] Os vilões seriam o ambiente rústico, de frio e fome, ou as aves segregadoras. Se falta a figura paterna, quem ganha destaque é a mãe, quase uma má-drasta. Um de seus primeiros gestos é a preocupação com a imagem pública da sua prole, abertura para o exílio vivido pelo filhote, em seu aspecto distinto.

Por outro lado, quando o pai aparece, ele rouba algo do filho. É o que a versão da Walt Disney bem mostra, algo como “saia daqui, esta mulher é minha”. Então o pai enlaça lei e desejo [4] A falta é transferida cada troca de contatos do patinho, até mesmo em figuras ameaçadoras, tais quais os cães de caça, que o farejaram mas, não o morderam, de tão feio, ou o desagrado dos moradores da casa onde foi abrigado por uma velha, da qual não se estabeleceu por muito tempo.

Não é de se estranhar que logo após este episodio, o patinho saísse banido rumo ao lago, numa primavera que trouxe de volta os cisnes, as belas aves que ele admirara e vira partir no outono. Foi quando ele curvou sua cabeça de medo, para os espelhos das águas, descobrindo que havia transformado-se no mais belo dos cisnes. Tal mudança evoca uma fala, de quando ele ainda estava envolto dentro do ovo: “Não julguem que isto é o mundo todo! – disse a mãe. – Estende-se muito para além do outro lado do jardim […] ”.[1] Se somos marcados pelos ditos maternos, cabe ao sujeito dar o devido fim aos seus princípios de caráter ambivalentes.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

  1. ANDERSEN, H. Os Contos de Hans Christian Andersen: O Patinho Feio, Portugal, 2012

 

  1. CORSO, D. L.; CORSO, M. Fadas no Divã: Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006

 

  1. FREUD, S.O Estranho. Edição Standard Brasileiras das ObrasCompletas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1919/1974.

 

  1. VIEIRA, Marcus André; BARROS, Romildo do Rêgo. Mães. Rio de Janeiro: Subversos, 2015.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.