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AS PARCEIRAS – As mulheres malsinadas de Lya Luft

Tânia Nogueira

No início dos anos 1980 Lya Luft lançou três livros que vieram a formar a Trilogia da Família: As parceiras (1980), A asa esquerda do anjo (1981) e Reunião de Família (1982). O tema em comum entre estes livros é a história de uma família.

As parceiras é um romance sobre mulheres de uma família marcada pela loucura, pela morte, pela decadência. Anelise, a narradora da história, busca no passado, as razões para seu infortúnio e encontra coragem para lutar contra o fardo de sua herança maldita, contra a repressão da sociedade e contra valores hipócritas. Nesta busca, de forma metafórica, revelam-se os mitos, segredos e tabus que constituíam a dinâmica familiar.

Anelise cresce cercada por mulheres. A família é vista como uma família de doidas e perdedoras. A Loucura, o suicídio, o aleijão são as marcas da família. Ela narra sua tentativa de romper com o mito familiar. Este livro está envolto em metáforas, que revelam a dicotomia ente a vida e a morte, “parceiras ocultas, se divertiam comigo”

  • “As parceiras riam, dentes amarelos”
  • “Quando menos se espera as parceiras escamoteiam uma peça” (ela diz quando os pais morrem e desaparecem num acidente e ela não pode enterrá-los)
  • “Então a traidora não é só a morte – era a vida também, a parceira, a outra bruxa soprando velas na noite”

Para Anelise, a vida era vista, como um jogo de azar:

  • “É como se a vida fosse um jogo em que as peças mudam, mas as jogadoras são as mesmas incógnitas.”
  • “Mas eu tenho muito o que fazer: descobrir como tudo começou. Porque acabou. Se dou com a ponta errada do fio, se descubro o lance perverso da jogada, a peça de azar, quem sabe consigo sobreviver.”
  • “Pagara em dobro pela alegria da juventude. Só então casadas, sofridas, provadas, cada uma no seu tabuleiro particular, começaríamos a ser amigas. Tarde demais.” (Refere-se à relação com a irmã, sempre distante, com a qual pouco conviveu)
  • “Para mim, a peça mais importante sempre fora minha avó, que eu só vira uma vez no sótão branco recendendo a alfazema.”
  • “Eu que fui a boba, a louca: acreditei na vida, apostei mil vezes… perdi em todas…”
  • “Otávio (o primo, filho de criação da tia) era outra peça de azar”

Outra metáfora refere-se ao sótão: “uma família triste e patética… Teatro de sombras, incógnito. O sótão: “…Depois me deito no abrigo dos lençóis, só as tábuas rangem, a chuva e o mar tem vozes familiares.Se pudesse calar o pensamento, a voz do sótão”

Anelise conta a “história das minhas raízes”, uma história que se transforma em Mito: uma família de mulheres, uma família de doidas, uma família de perdedoras:  “um bando de mulheres malsinadas, um bando de mulheres sozinhas e doidas, mulheres com ar distraído”.

Uma família de mulheres que trazem a sina de “loucura, suicídio, aleijão.” O mito tende a se reproduzir em gerações sucessivas, mantendo inalterada sua estrutura e os papéis designados (A avó fora violentada pelo marido e tinha terror do sexo e da vida – Anelise tinha medo de enlouquecer). Porém, às vezes, há mudanças na trama mítica, pois no decorrer do tempo as funções até então designadas podem ser modificadas ou transformadas. Anelise parecia ter rompido com o mito familiar, quando após vários abortos, finalmente teve um filho: “Afinal nasceu um homem nesta família de mulheres, e eu vencera, a vida venceu…”

A família de origem de Anelise já revelava traços do mito familiar: “Uma família triste e patética”; “não éramos como outras famílias… éramos esquisitos”; “não éramos uma família de verdade… éramos hóspedes de um mesmo hotel”.

O segredo é abordado de maneira crucial. Várias passagens exemplificam os segredos da família de Anelise, como por exemplo, a traição, homossexualidade feminina, loucura, sexo, morte, casamento. “O beco sem saída onde todas nos encolhíamos”.

Havia no casarão da família “segredos”. Os segredos sobre Catarina (a avó): homossexualidade e suicídio; o segredo da irmã, que, ao se casar, prometeu ao marido que nunca teria filhos, pois, ele temia que se repetisse a saga da família de “doidas”; o segredo do primo (homossexualidade).

Em As parceiras aparecem tabus como sexo, traição, incesto e morte: “Velório não é coisa para criança”; Ninguém falava da avó e Anelise não falava da doença do filho, que veio a morrer aos três anos: “nem para o meu marido”. Outro tabu era a dúvida sobre a masculinidade do primo Otávio.

No final do livro aparece o “cortejo fiel”: os mortos, os loucos, os suicidas, os dúbios e desamparados, os culpados, os solitários e fica, então, a pergunta: “A indiferença é uma forma de libertação?”

 

  • Livros de Lya Luft

Canções de Limiar (poesia, 1964)

Flauta Doce (poesia, 1972)

Matéria do Cotidiano (contos, 1978)

As Parceiras (romance, 1980)

A Asa Esquerda do Anjo (romance, 1981)

Reunião de Família (romance, 1982)

O Quarto Fechado (romance, 1984)

Mulher no Palco (poesia, 1984)

Exílio (romance, 1987)

O Lado Fatal (poesia, 1989)

A Sentinela (romance, 1994)

O Rio do Meio (ensaio, 1996)

Secreta Mirada (poesia, 1997)

 O Ponto Cego (romance, 1999)

Histórias do Tempo (contos, 2000)

Mar de Dentro (memórias, 2000)

Perdas & Ganhos (ensaio, 2003)

Histórias de Bruxa Boa (infantil, 2004)

Pensar É Transgredir (ensaio, 2004)

Para Não Dizer Adeus (poesia, 2005)

Em Outras Palavras (ensaio, 2006)

A Volta da Bruxa Boa (infantil, 2007)

O Silêncio dos Amantes (contos, 2008)

Criança Pensa (infantil, 2009)

Múltipla Escolha (ensaio, 2010)

 A Riqueza do Mundo (crônicas, 2011)

O Tigre na Sombra (romance, 2012)

O Tempo é um Rio que Corre (ensaio de não ficção, 2013)

Paisagem Brasileira (ensaio, 2015)

A casa inventada (ensaio e ficção, 2017)

 

 

 



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