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Lembranças de meu pai

Autora: Sandra Caldeira/ Odontóloga e estudante de Psicologia

 

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Com o universo em rede, hoje em dia muito pais se dirigem aos filhos por emails. Não que isso seja de todo ruim, mas sem contato olho no olho, fica difícil um relacionamento de pais e filhos, verdadeiro e significante. Penso que um relacionamento assim, pode se tornar muito asséptico, anônimo.

Perdem muito, pais e filhos. Quando meu pai morreu eu tinha sete meses de grávida do meu filho João. Que dor! Foi uma dor tão grande, como se minha alma estivesse ferida, uma dor que de tão imensa, foi física… a não ser, por um serzinho que remexia tanto dentro de mim, como a me dizer: Mamãe eu estou aqui ,vou te ajudar!

São os significantes inconscientes da vida. João, como não podia deixar de ser, se parece demais com meu pai. O cabelo preto lindo, os pés e pernas perfeitos, parece uma parede de tão grande, os cílios imensos, os olhos castanhos. Tornou-se uma pessoa boa, de bem com a vida, caráter ilibado e o melhor, tem uma paz interior bem parecida com meu pai. Meu pai era um sonhador, mais sonhador que qualquer outra pessoa que conheci. Ele não conheceu seus pais. Tinha mais ou menos dois anos quando os perdeu, mais amava tudo o que restou de sua família, profundamente. Teve sete filhos, criou e educou a todos.

Era um educador nato. Tinha sempre uma palavra especial,não só para mim, mas para todos a sua volta.Era carinhoso e amoroso.Tinha uma brincadeira  engraçada de pedir sempre um cheirinho para o Pedro, meu filho mais velho.Era agregador. Lá em casa se revezavam por temporada, os filhos, netos, sobrinhos, suas irmãs e amigos. Apaziguava até briga de casais, ao violão, fazendo verdadeiras serenatas para os vizinhos. Parecia que era uma eterna festa, e que nunca mais acabaria.

Papai nunca levantou a voz para a gente, mas suas conversas na janela, eram  mais que carões, eram lições de vida.Quando eu fazia algo errado ele dizia: “Minha filha me conta:                                                                                                                                                             porque você fez isto? Eu também já fiz muita coisa pensando que ia dar certo, mas deu tudo errado.” E ao lhe contar, ele dizia: “Por este caminho você viu que não dá certo”. Então,  vamos craniar ( neologismo criado por ele para pensar) uma outra saída. Quando telefonava para ele, seu alô era: “Minha filha você está feliz? Então eu também estou feliz”. Era impossível não se sentir única e importante para ele.                                                   Era feminista, dizia que as mulheres eram poderosas e donas da vida. Dizia que se todo o feminino do mundo não quisesse mais procriar, o mundo acabaria.O mundo seria feminino,e para estarmos  preparadas,tínhamos que estudar muito, para não perdermos o bonde da história. Que todo este preparo nos traria independência e liberdade para escolher nosso próprio destino. Talvez por isso, eu tenha tido fôlego para estudar, trabalhar, casar, ser mãe e agora mais madura me reinventar como psicóloga.

Há algo de mágico em ser filha do Seu Reis. Ele está sempre comigo, vivo, nos olhos do meu filho João, no humor e alegria do Pedro, quando me vejo falando com eles, da maneira amorosa e responsável que ele falava comigo, e, principalmente, quando me pego dizendo: “Meu filho se cuide bem,porque eu te amo muito!”

Momentos como estes não podem ser passados “por e mail”, tem que ser passados “por amor”!



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