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Mitos, Segredos e Tabus na trilogia da família de Lya Luft

Tânia Nogueira

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A família é a base da organização social. É na família e através dela que o indivíduo se constitui como sujeito. A família possibilita o compartilhar de emoções, a internalização de normas e valores e é o espaço onde se desenvolve o sentimento de pertencimento e individuação.

A família tem que atender as normas sociais e, neste sentido, muitas vezes ela procura parecer o que não é. E por trás da máscara familiar existem os mitos, tabus e segredos. Este artigo se propõe a desvendar os mitos, segredos e tabus, revelados nos três livros de Lya Luft que compõem a trilogia da família: As parceiras, A asa esquerda do anjo e Reunião de família. Para enriquecer será feita também uma análise das metáforas usadas pela autora.

INTRODUÇÃO

No inicio dos anos 1980 Lya Luft lançou três livros que vieram a formar a Trilogia da Família: As parceiras (1980), A asa esquerda do anjo (1981) e Reunião de Família (1982). O tema em comum entre estes livros é a história de uma família. Nos três livros, a história é narrada por uma mulher: Anelise, Gisella e Alice, respectivamente. Cada uma dessas mulheres relata sua própria história entrelaçada com a história de suas famílias, sendo o final, em todos relatos, surpreendente e chocante.

Dessas histórias podem ser extraídos vários temas da Abordagem Sistêmica e aqui, a opção foi pela análise de mitos, tabus e segredos. Em todas as famílias da ficção ou do cotidiano por trás da máscara familiar se escondem (ou se revelam) mitos, tabus e segredos. Será feito um “desmascaramento” das famílias criadas por Lya Luft. 

ASA ESQUERDA DO ANJO (1981)

A Asa Esquerda do Anjo conta a história de uma família alemã rígida, dominada pela avó. Gisella vive entre seguir as normas impostas pela avó e o desejo de ser como qualquer outra criança. Busca, incessantemente, aprovação, em uma família, na qual se sente “intrusa” como a mãe, que não era alemã.

Gisella cresce em uma família na qual a avó paterna impõe regras e valores. Procura fugir ao controle da avó, mas sempre é punida e se sente culpada. Torna-se uma mulher que, ao mesmo tempo, deseja e teme sua sexualidade. Além de seus conflitos sexuais, enfrenta a morte de algumas pessoas queridas, entre elas a da prima, Anemarie, o peixinho dourado da avó.

A dinâmica desta família mostra uma estrutura familiar hierárquica, fortemente marcada pelos mitos do poder e da família perfeita. A avó tiranizava toda família, e como resposta, havia um jogo do faz de conta – a alegria da mãe de Gisella, os natais e toda família reunida. Mesmo a autoridade da avó parecia uma farsa “na ilusão de que seu mundo antigo poderia se manter”; “Família é apenas um nome, baile de máscaras, talvez, sobretudo uma aflição”, afirma Gisella.

Os mitos são as leis, geralmente irracionais e inadequadas que se mantêm através da repetição de fatos, comportamentos (ritos/ regras). A família nesta trama é, em si mesma, um mito: “família importante: os mortos engavetados no jazigo de pedra” – o ritual que mantém o mito.  Gisella percebia que: “Numa família em que não se pode contestar ou ser fraco há uma morte antecipada”

A organização do sistema familiar se apóia em suas leis, regras e estratégias. A avó impõe alguns valores, tais como: ordem, limpeza, ser de origem alemã, discrição, boas maneiras.  

As regras eram claras: “Nada pode sair do esperado” (a mãe intrusa porque não é alemã; a prima que foge com o marido da tia); “As pessoas têm que ser fortes”; “Ninguém pode queixar da tirania da avó”. (Gisella não consegue romper com as regras de moralidade, por isso, não se casa e enlouquece.) A neta que rompe com as regras familiares tem um final infeliz: adoece e morre.

Outros mitos aparecem, todos interligados entre si: O mito do poder do homem: “As boas donas de casa adoçam a existência dos homens, que têm responsabilidades”. E, ”Só precisam ser limpos “. Os homens só precisam se limpar, as mulheres que aguentem as consequências”.

Outros mitos dessa família: “O amor é a morte”; “Religião é para os fracos”, o jazigo da família- “O jazigo me servia de igreja”.

Os mitos familiares são tangenciados pelos mitos pessoais ou individuais. Quais seriam os mitos de Gisella? Diante de suas vivências de não pertencimento à família – “vou ficar de fora do jazigo” e dos estigmas tais como “sem graça, feia, burra, preguiçosa”, alguns mitos surgiram: “Eu certamente era o desastre da família”; “Não faria a felicidade de marido algum”, “Nunca me casarei”.

Os valores sexuais da família trouxeram o mito da virgindade – “a portinha do porão continuava secreta”  e o conflito entre o medo versus o desejo: “bordava internamente, como se costurando fechasse o meu corpo”. O conflito aparece também em: “Eu estaria limpa? ”; “… nasce em mim uma inesquecível experiência de maternidade. ”

A vivência de ambiguidade, que se inicia por seu nome: Gisella ou Guisela? Aí, desde a infância, começava a vivência de fragilidade x força: “fracassando me sentia forte. Não ia me preparar para uma existência de submissão que eu não desejava: cultivei uma realidade oculta e mesquinha”. Esta vivência gera uma grande culpa e no final quer expurgar a culpa e buscar a salvação – “Talvez a salvação de toda família Wolf tivesse ficado escondido no quartinho do porão. E ninguém possuía a chave”; “O amor é a morte? ”; “Como coube em mim essa coisa imensa? Que comunhão foi a nossa? ”, encontra a Loucura. Ou, talvez, o “parto de um verme” represente a saída da angústia, da falta de identidade e da ambiguidade que Gisela carrega consigo.

Diante do autoritarismo da avó, o aparecimento de tabus era inevitável. Tabu é um assunto de que simplesmente não se fala por várias razões: porque é alvo de opiniões contraditórias, porque é um assunto que interfere com a sensibilidade das pessoas, etc. Também pode ser considerado como qualquer assunto inaceitável ou proibido em uma determinada sociedade. Geralmente é carregado de pudor e/ou vergonha.

A descoberta que os pais tinham relações sexuais — “o mundo adulto escondia coisas inconfessáveis”, “Foi a primeira fissura que não teria conserto”.

– “Sinto um prazer animal, primitivo, ao mexer no proibido” (ao brincar na infância com o castelo de areia).

– Falar da fuga da prima (evento vergonhoso) diante da avó era o grande tabu;  falar sobre a sua morte, também,  era proibido.

Segredos, tabus e mitos se entrelaçam. O conteúdo da carta enviada por Anemarie nunca foi revelado, era um segredo guardado pela avó. E nada poderia ser dito e, possivelmente, endossado por todos os membros da família, de geração para geração, se tornaria um mito. Da mesma forma, as cartas que a avó escreve pouco antes de sua morte (em alemão, sem nexo e sem destinatário)

Mitos, tabus e segredos aparecem muitas vezes de forma metafórica. Lya Luft usa várias metáforas para falar da saga da família de Gisella.

A própria descrição do anjo “a mão direita erguida para o céu e a esquerda pendendo cansada no regaço”. A asa esquerda que pende cansada, e ao final do livro se fende, diz metaforicamente da fenda da família, do desmoronamento da família, que começou com a fuga de Anemarie. O próprio anjo simbolizava a suposta perfeição da raça alemã.

Outra metáfora aparece nos segredos guardados “em uma portinha no porão”. O porão simboliza o inconsciente familiar, aquilo que fica guardado, trancado, velado. Esconde um saber que não se quer saber.

AS PARCEIRAS (1981)

As parceiras é um romance sobre mulheres de uma família marcada pela loucura, pela morte, pela decadência. Anelise, a narradora da história, busca no passado, as razões para seu infortúnio e encontra coragem para lutar contra o fardo de sua herança maldita, contra a repressão da sociedade e contra valore hipócritas.

Anelise cresce cercada por mulheres. A família é vista como uma família de doidas e perdedoras. A Loucura, o suicídio, o aleijão são as marcas da família. Ela narra sua tentativa de romper com o mito familiar.

O  texto está envolto em metáforas, que revelam a dicotomia ente a vida e a morte, “parceiras ocultas, se divertiam comigo”

  • “As parceiras riam, dentes amarelos”
  • “Quando menos se espera as parceiras escamoteiam uma peça” (ela diz quando os pais morrem e desaparecem num acidente e ela não pode enterrar-los)
  • “Então a traidora não é só a morte – era a vida também, a parceira, a outra bruxa soprando velas na noite”

Para Anelise a vida era vista, como um jogo de azar:

  • “É como se a vida fosse um jogo em que as peças mudam, mas as jogadoras são as mesmas incógnitas. ”
  • “ Mas eu tenho muito o que fazer: descobrir como tudo começou. Porque acabou. Se dou com a ponta errada do fio, se descubro o lance perverso da jogada, a peça de azar, quem sabe consigo sobreviver. ”
  • “Pagara em dobro pela alegria da juventude. Só então casadas, sofridas, provadas, cada uma no seu tabuleiro particular, começaríamos a ser amigas. Tarde demais. ” (Refere-se à relação com a irmã, sempre distante, com a qual pouco conviveu)
  • “Para mim, a peça mais importante sempre fora minha avó, que eu só vira uma vez no sótão branco recendendo a alfazema. ”
  • “Eu que fui a boba, a louca: acreditei na vida, apostei mil vezes… perdi em todas…”
  • “Otávio (o primo, filho de criação da tia) era outra peça de azar”

Outra metáfora refere-se ao sótão: “uma família triste e patética, todo mundo querendo sobrenadar – mas e as águas? Teatro de sombras, incógnito. O sótão”

“…Depois me deito no abrigo dos lençóis, só as tábuas rangem, a chuva e o mar tem vozes familiares.Se pudesse calar o pensamento, a voz do sótão”

Anelise conta a “história das minhas raízes”, uma história que se transforma em Mito: uma família de mulheres, uma família de doidas, uma família de perdedoras, um bando de mulheres malsinadas, um bando de mulheres sozinhas e doidas, mulheres com ar distraído.

Uma família de mulheres que trazem a sina de “loucura, suicídio, aleijão. ” O mito tende a se reproduzir em gerações sucessivas, mantendo inalterada sua estrutura e os papéis designados (A avó fora violentada pelo marido e tinha terror do sexo e da vida – Anelise tinha medo de enlouquecer). Porém, às vezes, há mudanças na trama mítica, pois no decorrer do tempo as funções até então designadas podem ser modificadas ou transformadas. Anelise parecia ter rompido com o mito familiar, quando após vários abortos, finalmente teve um filho: “Afinal nasceu um homem nesta família de mulheres, e eu vencera, a vida venceu…”

A família de origem de Anelise já revelava traços do mito familiar: “Uma família triste e patética.” ,“Não éramos como outras famílias… esquisitos”, “Não éramos uma família de verdade’, “Éramos todos hóspedes de um mesmo hotel”.

O segredo é abordado de maneira crucial. Várias passagens exemplificam os segredos da família de Anelise, como por exemplo, a traição, lesbianismo, loucura, sexo, morte, casamento…. silencio… O beco sem saída onde todas nos encolhíamos” .

“Havia no casarão da família “segredos “. Os segredos sobre Catarina (a avó): homossexualidade e suicídio; O segredo da irmã Vânia, que ao se casar prometeu ao marido que nunca teria filhos, pois este não temia que se repetiria a saga da família de “doidas’; O segredo de Otávio (homossexualidade)

Em As parceiras aparecem tabus como sexo, traição, incesto e morte: “Velório não é coisa para criança”; ninguém fala da avó. E Anelise não falava da doença do filho, que veio a morrer aos três anos:  “nem para o meu marido”. Outro tabu eram os questionamentos a cerca da masculinidade do primo Otávio.

No final ocorre o “ cortejo fiel”: os mortos, os loucos, os suicidas, os dúbios e desamparados, os culpados, os solitários e a pergunta: “A indiferença é uma forma de libertação? ” 

REUNIÃO DE FAMÍLIA

Em Reunião de família são dissecados conflitos familiares, tão comuns, diante da morte, da solidão e da falta de sentido para a vida. Alice, juntamente com os irmãos cresce oprimida por um pai violento. É convocada para uma reunião em que a família vai discutir uma forma de ajudar à irmã que perdeu um filho. Mas o fim de semana se transforma num acerto de contas.

Na narrativa a autora usa a metáfora do espelho – revelando as duas faces da família

  • “Eu brincava de não ser eu – poderosa, inconquistável” .
  • “Que farsa representamos diante do espelho”
  • “Reflexos de reflexos de reflexos, eis o que somos”.

Outra metáfora refere-se aos bichos no ouvido do pai (castigo? A consciência/culpa?)

A estrutura da família é marcada, de um lado, pela violência e por outro, pela fragilidade. Tendo o avô e o pai alcoólatras e violentos, Renato é submisso à mulher, da qual é refém e vive em constante humilhação uma história que se repete de geração a geração: o avô e o pai – alcoólatras e violentos. Entretanto, Renato, o irmão, é um fracassado, submisso à mulher, do qual é refém e em constante humilhação.

Além do irmão, Alice e Evelyn se mostram frágeis.

Alice não consegue sair da rotina: “Quando saio fico nervosa”; “Preciso de tudo ordenado e calmo”; “A gente segura coisas banais querendo controlar a vida”; “Parece que sempre me salvei pelas coisas banais”; “Por que fui sair de casa de minha vida tão certa? ”

Evelyn perde o filho de forma trágica e não aceita sua morte. Passa a comportar-se como se ele estivesse vivo e por isto que Aretuza a cunhada convoca a reunião de família. Ela, por sua vez carrega a culpa pela tentativa de suicídio de uma aluna, apaixonada por ela. Culpa, que se transforma em um mito pessoal _ “só destrói”

A dinâmica familiar é marcada pelo jogo do “faz de conta que nada aconteceu” e especialmente nas reuniões do fim de semana, este fica evidente:

  • “Ninguém comenta nada, fingimos não notar” (o palhaço no colo de Evelyn)
  • Formamos uma estranha cena à mesa do jantar – parecemos fantasmas”
  • “Reagimos como se o mundo tivesse que girar no mesmo ritmo, sobre o eixo de sempre, quando na verdade um abismo voraz se abriu à nossa frente” (após o grito de Renato, que revela para o pai toda sua mágoa e seu ódio guardado por tantos anos).
  • “Estamos todos empalhados. Não somos reais. Fantoches brincando de juízes num fim de semana”.
  • “Todos queremos nos recompor, recompor o quadro familiar, não queremos ser animais, loucos ou sujos”.
  • “Estamos calmos e compostos”.

Aliado ao jogo “faz de conta que nada aconteceu”, nada se fala (tabu) sobre e/ou com Evelyn que sustenta “o jogo: Cristiano vive”

  • “Cultivamos com ela seu jardim de miragem. ”

No acerto de contas revelam-se ressentimentos e segredos. Renato: “Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um”.  Alice traduz “Talvez ele tenha falado por todos nós”.

Outros temas da família de Alice vêem à tona: o caso da aluna de Aretuza, as experiências homossexuais de Alice e Aretuza na adolescência e o segredo de Alice, que fica no ar: Alice inventou ou inventou um amante?

Toda a dinâmica familiar que culmina com esta reunião familiar tem origem há muitos anos:

  • “Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincávamos juntos, mas logo são capazes de se dilacerarem por um naco de carne”.
  • “Éramos destreinados na ternura”
  • “Nossa preocupação não era o amor, era fugir do castigo” .
  • “Criados como crianças escorraçadas”
  • “E. aprendeu a mentir, como todos nós” .
  • “Nossa família era um espelho sem moldura. Inconsistente: um toque mais brusco, tudo se estilhaçava”.
  • “Ninguém era digno de confiança. Não havia lealdade… diante da ameaça de uma surra” .

Sendo que o grande tabu era a morte da mãe: Ninguém falava da mãe – e por isso Alice sentia-se desenraizada – “Família, um espelho sem moldura”.

Considerações finais:

Nesta trilogia da família  – As parceiras, A asa esquerda do anjo, Reunião de família, aparecem vários temas em comum:

  • A figura da mãe é inexpressiva, marcada pela morte ou pela alienação
  • Homens violentos;
  • Fantasias ou experiências homossexuais;
  • Tirania;
  • Suicídio;
  • Loucura;
  • O jogo do “faz de conta”.

As famílias de Lya Luft escancaram o que é comum em todas famílias: mitos, segredos e tabus. O jogo do “faz de contade que nada aconteceu, de que ele (ela) não foi embora, de que ele (ela) gosta de mim, de que eu sou (in) vulnerável … e muitos outros. A hipocrisia é a marca e a própria destruição das famílias.

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[1] Este texto será melhor compreendido por aqueles que já leram os livros de Lya Luft. Para quem não leu, fica o convite para ler e discutir sobre mitos, segredos e tabus tão comuns em toda e qualquer família.



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