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O desenho, o jogo e as brincadeiras infantis

Wallana Coutinho/Psicóloga

 

A brincadeira é a atividade que faz parte do cotidiano de qualquer criança, independente do local onde vive, dos recursos disponíveis, do grupo social e da cultura da qual faça parte, todas as crianças brincam”.Luciana Wagner Schöffel.

O desenho infantil

Vygotsky propõe que o desenho na infância atua como um estágio preliminar do desenvolvimento da escrita, tendo ambas as mesmas origens de construção que é a linguagem falada. Ele ainda ressalta que as crianças não desenham aquilo que vêem, mas sim o que sabem a respeito dos objetos, ou seja, o desenho representa seus pensamentos, seus conhecimentos e/ou suas interpretações sobre uma dada situação vivida ou imaginada por ela. Neste âmbito é importante lembrar que até mesmo os desenhos das crianças menores representam para ela todo um mundo de significados e sentidos que ela mesma atribuiu-lhes.

Posso me lembrar de algumas das inúmeras vezes em que desenhei, esta era uma das minhas principais atividades e uma das que mais gostava. Eu desenhava muitas coisas, e até me lembro de em uma determinada ocasião, desenhar uma árvore com vários pássaros azuis pousados, cantando. Desenho este em que recebi vários elogios, que certamente me serviram de incentivo para continuar desenhando, buscando sempre que tais desenhos estivessem o mais próximo da realidade, e que para mim, naquele momento já representavam um mundo de significados e já pertencia minha própria realidade.

Outro desenho que me lembro de fazer, eram varias notas musicais. As desenhei para meu avô que era musico, e achou muito interessante a associação que eu havia feito do desenho e da pessoa na qual ele seria destinado.

Hoje em dia percebo o quanto foi significativo para minha infância, fazer estes desenhos, já que eu era uma criança muito tímida e retraída, e esses desenhos de alguma forma podiam expressar sentimentos no qual eu ainda não me sentia preparada para falar. Eles mostravam a maneira como eu via o mundo, como eu via o meu mundo.

Ainda vejo tal prática presente nas crianças hoje em dia, algumas por meio do computador, ainda faz desenhos tentando de alguma forma demonstrar sua “apropriação da cultura”.

 

  • A Brincadeira

 

Para Vygostsky brincar é mais do que uma atividade sem conseqüência para a criança. Brincando, ela não apenas se diverte, mas recria e interpreta o mundo em que vive e se relaciona com este mundo. Brincando, a criança aprende. Elas atribuem valores e significados aos brinquedos. Os brinquedos então são signos e símbolos no qual as crianças utilizam para se expressarem conforme percebem a realidade em sua volta. Esta expressão é possibilitada pela interação social da criança com o meio em que vive.         Para Vygotsky é a partir da experiência com o mundo objetivo e do contato com as formas culturalmente determinadas de organização do real que os indivíduos vão constituir seus sistemas de signos.

O “faz de conta”, por exemplo, é o que possibilita a criança dar novos significados a objetos na brincadeira, é o que favorece o desenvolvimento da abstração, a possibilidade de imaginação e de criar e inventar.

Esse “faz de conta” é o que, em minha infância, me possibilitou brincar de escolinha, onde eu quase sempre era a professora.       Para mim eu não dava aula apenas aos meus irmãos, na minha brincadeira eu dava aula a uma turma inteira. Quando brincava de boneca, aquele objeto era muito mais que uma boneca, era minha filha, que sentia frio ou ficava com fome como se fosse uma pessoa de verdade, ou quando fazia comidinha tudo aquilo representavam de alguma maneira uma recriação das coisas que eu já havia percebido ao meu redor, por exemplo, que em uma sala de aula havia apenas uma professora e vários alunos, ou que bebês pequenos sentem frio e devem ser alimentadas.

A recriação de situações do contexto é comum na infância, e me lembro que nas brincadeiras de “escolinha” eu até me vestia, falava e sentava à mesa como uma professora de verdade. Brincar é a melhor maneira de uma criança aprender, pois ela consegue recriar papeis que fazem parte de seu contexto e conhecer o modo que cada um destes papeis atuam. Vygotsky não toma a atividade imitativa como um processo mecânico, mas sim como uma oportunidade de a criança de realizar ações que estão alem da própria capacidade, o que contribuirá pra seu desenvolvimento.

O brinquedo pode ter sentido de acordo com a ação e imaginação da criança e do modo como ela, através dos colegas, estabelece e compartilha novos sentido a ele. A escolha dos brinquedos então, pode dizer muito sobre a criança já que a brincadeira expressa o modo como refletem, organizam, desorganizam, constroem, destroem e reconstroem o seu mundo. Segundo Vygotsky, o brinquedo é considerado um signo pra criança, pois são interpretáveis como representação da realidade e pode referir a elementos ausentes do espaço e do tempo presente, ou seja, representações mentais. Constituindo a memória e a atenção da criança, onde esses signos, ou marcas externas, vão se transformar em processos internos de mediação, internalização, que é justamente a capacidade que estas crianças vão desenvolver, de pensar um objeto ausente.

Alguns brinquedos marcam nossas vidas, e um brinquedo que marcou muito minha infância, que foi as bonecas Barbie. Todo natal, aniversário, dia das crianças eram elas que eu queria. Eu podia passar o dia inteiro ali, sentada, penteando os cabelos e trocando de roupas nelas. Era o meu passatempo preferido, e o único brinquedo que não me esqueço de ter brincado.

Hoje compreendo melhor os motivos no qual meu interesse se voltou para as Barbies. Elas me interessavam por ser um brinquedo no qual não era necessário que tivesse outras pessoas brincando. Pela minha timidez, e vergonha em conviver com outras pessoas, eu sabia que nessa brincadeira eu não precisaria me envolver com ninguém para que a brincadeira fosse divertida, ou seja, de alguma forma minha escolha por tal brinquedo já demonstrava minha necessidade de retrai-me, mantendo-me afastada por causa de minha timidez. Uma curiosidade sobre minha relação com as Barbies, era que após a brincadeira, eu as penteava, colocava as roupas originais de cada uma e as guardavam em suas caixas, na qual permanecem até hoje.

O brinquedo é o que possibilita a criação de uma situação imaginária e de uma definição de regras específicas, criando uma Zona de Desenvolvimento Proximal na criança, ou seja, o caminho em que a criança vai percorrer para desenvolver funções que estão no processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas e estabelecidas a nível de desenvolvimento real, são as tarefas que a criança ainda não da conta de fazer sem auxilio de um adulto ou alguém mais experiente ela dará futuramente.

Hoje já se percebe nas escolas, a importância da experiência prática da criança, para que desta forma ela consiga exercer determinadas tarefas estabelecidas pelo meio, como amarrar do cadarço do tênis. Ela participa ativamente no seu desenvolvimento como sujeito. Na forma como fui criada, aprender era um ponto crucial no desenvolvimento dos meus irmãos e meu. As experiências estavam presentes em muitos pontos de nossa vida, e percebo que isso foi importante, já que as escolas á alguns anos atrás, não davam essa liberdade da criança realizar no tempo em que for necessário seu objetivo. Apesar das escolas darem a oportunidade das crianças interagirem na sua construção como sujeito, percebo que isso fica um pouco distante em casa, quando os pais, quase sempre sem tempo, não deixam os filhos, mesmo demorando, concluírem suas tarefas, terminando a execução das tarefas para eles.

 

  • O Jogo

 

Os jogos possibilitam a integração dos processos de construção do conhecimento, que são a cognição e afeto da criança. A criança aprende através dos jogos, a conviver com as diferenças e internalizar conceitos básicos de relacionamento, e aprendem também a obedecer regras e normas auxiliando na construção de sua moral, já que para Vygotsky há dois elementos importantes nos jogos: as regras explícitas e as regras implícitas. As regras explícitas são aquelas estabelecidas de acordo com as regras do jogo, e as implícitas são as regras ocultas, necessárias para que a criança, por exemplo, não batam ou machuquem os colegas.

Jogos como pegue as varetas, cartas e jogos de tabuleiros, eram os jogos que mais fizeram parte da minha infância. Eram jogos repletos de regras que eram estabelecidas inicialmente, e que auxiliaram na maneira como lido com sentimentos de frustrações quando perdia, e com sentimentos de contentamento ao ganhar.

 

  • CONCLUSÃO

Hoje percebo que os jogos em dupla ou equipe, estão sendo cada vez menos utilizados, ao passo que as crianças preferem jogos da internet nos quais não é necessário o contado direto com outras pessoas. Os pais devem levar os filhos à parquinhos e pracinhas no intuito de estimularem sua interação com o mundo, não deixando que tal interação seja feita apenas na escola.

 



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