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O Luto familiar

Paula Knychala/Psicóloga e Psicopedagoga

                O luto é um processo pelo qual, em algum momento. Toda família irá passar, inevitavelmente. A perda, por morte de um familiar, é, sempre, um processo doloroso, mas este pode se tornar ainda mais complicado a depender das circunstâncias da morte, idade e relação que o membro, que se foi, mantinha com os demais familiares. Entretanto, numa família em que o envolvimento emocional é mais expressivo, a morte é sempre sentida como uma perda significativa, independente de quem tenha morrido e das circunstâncias de sua morte. Além disso, quanto mais expressivo foi aquele que partiu, mais a sua falta será sentida na dinâmica familiar. 

             No entanto, mesmo que o luto seja um luto no plural, ele também será sentido por cada um dos membros familiares. E, a maneira pela qual o luto será sentido individualmente, dentro de uma mesma família, tem haver, tanto, com a estrutura e o funcionamento da família, bem como a forma pela qual a família irá se portar diante da perda. Assim, é fundamental que os familiares consigam entender que o luto é de todos, e que cada um irá lidar com ele a sua maneira. E, apesar, de terem perdido a mesma pessoa, cada familiar teve com ela uma relação e uma vivência particular. Isto é, o vazio que a perda daquele que se foi causou nunca será o mesmo entre os familiares.

           O que se pode observar é que, em momentos de fragilidade, lidar com as diferenças se faz ainda mais difícil. Neste sentido, quando a perda ocorre em uma família que já era lugar de constantes conflitos e tensões, a morte pode servir como um agravante dos problemas. Uma vez que, ao invés de se ajudarem, os familiares se apegam às suas diferenças, principalmente na sua forma de vivenciar o luto, acentuando as discordâncias, as discussões e a segregação, pois se faz muito comum cobrarem entre si que tenham a mesma postura diante da perda. De tal modo que, enquanto, uns se mostram muito abalados com a perda e com sérias dificuldades em refazer suas vidas, outros já se mostram mais firmes e conformados com a situação. Dessa forma, é muito comum que aquele que está mais fragilizado não consiga compreender que o outro refaça sua vida, mesmo com a perda ainda muito recente. Por outro lado, aquele que se mostra mais firme, também pode não conseguir entender a dificuldade daquele familiar em dar seguimento com a sua vida. O que pode provocar um abalo na estabilidade familiar, ocasionando em cortes de relações e divórcios. 

    Além disso, o distanciamento entre os membros familiares se faz muito frequente pelo fato de que o afastamento muitas vezes dá a sensação ilusória de ser uma maneira fácil de evitar situações dolorosas. Assim, a morte e a memória do que se foi se torna um assunto velado na família, de tal forma que os familiares passam a viver quase como se aquele que morreu nunca tivesse existido, o que dificulta a vivência do luto de cada um dos membros. Neste sentido, estas famílias passam a viver um luto patológico, pois se recusam a assumir e a sentir a perda do ente querido, que em algum momento irá aparecer. E, neste momento, o distanciamento entre os membros familiares é tão severo que muitas vezes a retomada do vínculo pode se tornar impossível. 

       Por outro lado, tem sido observado também que momentos de extrema dor que são vividos em conjunto têm uma incrível força de união. Dessa forma, a ajuda mútua é capaz de favorecer e possibilitar que a família reaja mesmo diante de um momento tão doloroso quanto a morte de um dos seus membros de forma ágil e afetuosa. Assim, o processo do luto individual será facilitado pela vivência em conjunto, pois cada um dos membros familiares sentirá que não está sozinho na sua dor, de tal modo que os laços de solidariedade permitem que o abalo familiar sofrido pela perda de um de seus entes seja progressivamente reparado. Ao final, o que se pode observar é que estas famílias tendem a se mostrar ainda mais unidas e coesas do que pareciam ser antes da perda.



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