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O papel da mulher na família contemporânea/ Mudanças e Conservadorismo

Ceide Lemos de Souza Lima/Psicóloga

Paula Vaz Viana/Psicóloga

 

Ao fazermos uma reflexão sobre a mulher e seu papel na família contemporânea, próximo ao Dia Internacional da Mulher, podemos correr o risco de supervalorizar o elemento histórico (tempo, época, momento), com relação a este tema.

Então, algumas perguntas ocorrem-nos, como: seriam esta mulher e seu papel na família contemporânea uma simples repetição mecânica, originada no passado? Ela e seu papel surgiriam mais da influência do contexto global (sócio-econômico-político) no qual se acham inseridos? Ou poderiam ser sobretudo o resultado da própria estrutura feminina (características biológicas, físicas, emocionais da mulher)?

Pretendemos aqui, retratar o processo de constituição da mulher e seu papel na família contemporânea como uma construção não linear, nem resultante de causas e efeitos, mas complexa, holística, contínua e dinâmica.

Assim, consideremos inicialmente a família como um sistema aberto, que faz e recebe trocas de outros subsistemas (escolas, igrejas, etc.), portanto em constante evolução. Na sua forma tradicional é constituída por pai, mãe e filhos. O pai, autoridade máxima, é o único provedor e a mãe apenas cuidadora, sem nenhuma participação social, é totalmente dependente do cônjuge. Neste contexto, o papel da mulher restringe-se ao ambiente doméstico, como responsável pelos filhos e pela casa, sob a subserviência do marido, o “cabeça do casal”.

A partir, no entanto, do séc. XIX, surgem alguns marcos históricos significativos quanto à evolução da família, de seus membros e do papel principalmente da mulher. Trata-se, primordialmente da Revolução Industrial, com todo o avanço tecnológico ocorrido e a consequente profissionalização da mulher, da evolução vertiginosa das ciências em geral, propiciando, por exemplo, o advento do anticoncepcional, a ampliação do espaço sideral com a chegada do homem à lua, enfim, a ocorrência da globalização.  E tais acontecimentos tiveram enorme relevância como protagonizadores de algumas aberturas, novas concepções e práticas.

A família, por exemplo, passa por diversas transformações, surgindo vários tipos, como famílias multiparentais, monoparentais, homoafetivas, etc. Ocorreram também mudanças nos próprios elementos que constituem a família, como ainda nos papeis de cada um – da mulher, do casal, dos pais, dos filhos, da relação entre eles e até o aparecimento de novos integrantes como por exemplo, os avós, agora figuras essenciais no cotidiano da nova mulher (mãe) e dos filhos (netos).

Que mulher faz parte, então, deste contexto, neste novo momento? Uma mulher mais livre, independente, socialmente participativa, profissional mais reconhecida, com maiores responsabilidades como, por exemplo, uma participação relevante enquanto também provedora da família, além do homem.

A relação do casal torna-se, em comparação aos séculos anteriores, mais simétrica, pois além das mudanças citadas no papel da mulher (mãe), o pai passa a participar mais dos afazeres domésticos e da educação dos filhos. Surge, então, maior complementariedade no cotidiano do casal, maior cumplicidade, e companheirismo, pelas práticas compartilhadas entre eles no dia a dia da família.

No que diz respeito aos filhos, alguns autores consideram que eles ganham em independência com a saída da mãe de cena, assim como também maior presença e proximidade com o pai.

A partir de tais mudanças, constatamos que a mulher contemporânea é considerada como ser mais complexo, pois não existe a mulher contemporânea, o que se nota claramente através da existência de duas visões dela:

  • A visão romântica, idealizadora, exaltadora e enobrecedora, onde a mulher é tida como figura de sucesso, guerreira, corajosa, forte (não sexo frágil), mais realizada, feliz e cujo papel principal ainda persiste: a maternidade. Temos como exemplo a fala do Papa Francisco na celebração do Dia Internacional da Mulher, no ano de 2018: “─ A mulher é a harmonia, é a poesia e é a beleza (…) Deus criou a mulher para que todos nós tivéssemos mãe”.
  • Já a segunda visão é depreciativa, caricaturada, subestimadora, negativa, considerando a mulher, muitas vezes, menos inteligente, menos capaz, cabendo então a ela, por exemplo, um salário menor do que o do homem, assim como também, uma ampliação da sua carga de trabalho, como operária de três turnos (a mulher dedica às tarefas domésticas 22 horas semanais, ao passo que o homem dedica 9,5 horas semanais, além do trabalho fora de casa, 2012). Esta última visão pode ser considerada realista e até, algumas vezes, pessimista, pois sugere que toda luta e caminhada da mulher tenha sido em vão e, ainda, denota a continuação de uma cultura machista. Exemplo claro de tudo isto ocorre com relação ao papel desta mulher como mãe; na licença maternidade, enquanto a mulher tem 6 meses de licença, o homem tem apenas 5 dias, explicitando que cabe muito mais e ainda quase somente à mulher (mãe), cuidar dos filhos. É o que se percebe no caso também de doença de um filho: para cuidar dele, obvio é que cabe à mulher e não ao homem ausentar-se do trabalho (lembra até o ditado: “Quem pariu Mateus que o embale”). Consequência ainda mais drástica desta visão desvalorativa da mulher é a existência, no Brasil como em vários outros países, do maltrato, da agressividade, da destruição da mulher como: exploração e escravização no trabalho, agressão corporal, assédio moral, estupro, abuso sexual e até morte.

Alguns autores contemporâneos como Tânia Zagury, consideram a família como “geradora da ética” e “base moral dos filhos”. Em função disto, esta autora, ousa orientar um caminho para a família que vive na atualidade uma crise generalizada (de valores, econômica, política, da família) ”. Assim, foca como papel não só da mulher, mas também do homem, sobretudo dos pais:

– Transmitir valores aos filhos, exigindo firmemente deles em correspondência aos seus direitos, deveres e responsabilidades.

– Disciplinar, criar regras adequadas e zelar pelo seu cumprimento, num ambiente de diálogo, segurança e justiça.

– Ser exemplo, na prática, mais que por palavras e sermões.

– Ensinar solidariedade, justiça, honestidade, ausência de corrupção, sendo referência, modelo, nos mínimos atos do cotidiano.

– Ajudar a criar padrões éticos de conduta: tolerância, autocontrole, imprescindíveis ao equilíbrio emocional.

– Propiciar a internalização de valores que construam verdadeiros cidadãos íntegros e transparentes.

 

Enfim, para Tania Zagury, o papel primordial dos pais é estruturar o caráter dos filhos, nas suas ações do dia a dia.

 

A partir, então, dos aspectos levantados da realidade descrita sobre a mulher e seu papel na família contemporânea, chegamos às seguintes conclusões:

– Persiste uma desigualdade na tarefa de criação dos filhos, pois na realidade, a imagem do pai participativo ainda causa estranheza (preconceitos de gênero), na atual sociedade brasileira. Ainda se considera tais tarefas como parte da rotina da mulher, cuidar da casa e dos filhos. Esta visão do desempenho deste papel ainda é também ditada por nossa cultura e pela lei brasileira.

– Não é a mulher a única responsável ou construtora de si mesma, de seu desenvolvimento, ou crescimento e de seu papel na família e sociedade contemporâneas. E sim, entendemos que sua imagem, sua constituição ou figura na contemporaneidade é o fruto, o resultado da coparticipação de diversos subsistemas, agentes em inter-relação, ou de sua ação conjunta, da sua corresponsabilidade.

– E reconhecemos que muito já foi feito, através da luta corajosa da própria mulher e, participação de outros colaboradores, de maneira otimista, como também pessimista – idealizando e ou subestimando tal mulher e seu papel na família.

– Assim assistimos também, a própria mulher nesta caminhada tendo dúvidas, enganos, percorrendo descaminhos, cometendo exageros na concretização do seu projeto, praticando, por exemplo, uma verdadeira Guerra dos Sexos, ou competições com o masculino, imitações do homem que a afastavam de sua essência de sua feminilidade.

– O saldo final, observado por nós é de que até o presente momento, a mulher e seu papel sofreram mudanças significativas. Mas constatamos, ao mesmo tempo a presença de ações e posturas muito conservadores, tanto por parte da própria mulher, quanto do homem e de nossa cultura. Por exemplo, a sociedade contemporânea faz cobranças preconceituosas à mulher e o próprio homem, muitas vezes, sente-se ameaçado diante desta mulher mais ativa, mais assertiva e mais atuante. Assim, até ela também regride a velhas posturas, por exemplo, de única responsável pela educação dos filhos e cuidado do lar, subestimando o companheiro e não o estimulando a ser solidário, e assim, não contribuindo para a igualdade de deveres e direitos do casal.

 

Este verdadeiro vai e vem pode ser representado pela metáfora-dança brasileira do xaxado, onde passo para frente, passo para trás, sem sair do lugar, não leva a ganhar um novo espaço ou promover movimentos para mudança.

No entanto, como já dissemos antes, MUDAR, EVOLUIR não é um processo linear, sempre ascendente, mas a elaboração de uma SÍNTESE, que envolve TESE e ANTÌTESE (velho e novo). E exige de cada um, de todos nós (mulher e homem, mãe, pai e filhos, cidadãos em geral) a tarefa de quebrar este CÌRCULO VICIOSO que nos afasta do sonho humano de maior qualidade de vida, através de relações íntimas familiares e sociais saudáveis. E para tanto torna-se imprescindível a coragem humana de enfrentar perdas e ganhos, custos e benefícios, conviver ao mesmo tempo com o velho e o novo. Finalmente, como declaram algumas mulheres contemporâneas, abandonar o lugar de MITO, HEROÍNA, DEUSA, assumindo, como ocorre, mais trabalho, muito cansaço, maiores responsabilidades. Só assim, viveremos um novo tempo – diferente deste que reflete o momento de atual TRANSIÇÃO ou de mudanças ainda não consolidadas. Reais uniões e parcerias, transparência nos valores, crenças, sentimentos e práticas revelam-se possíveis condutores mais efetivos para a construção do NOVO – seja mulher, homem, papeis, tanto na família contemporânea, como até mais futura ainda.

Bibliografia

COSTA, Irla Henrique, ANDRÓSIO, Valéria de Oliveira. As transformações do papel da mulher na contemporaneidade. Disponível em srvwebbib.univale.br>pergamum>tcc. Acesso em 07/03/2018

MARTELLO, Alexandro. Contando jornada doméstica, mulher trabalha mais do que homem, diz OIT. Disponível em m.g1.globo.com. Acesso em 08/03/2018

www12.senado.leg.br. A primeira Pec de 2018 amplia duração das licenças maternidade e paternidade. Acesso em 13/03/2018.

ZAGURY, Tânia. Os direitos dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise. Editora Record: Rio de Janeiro, 2004

 

  • Ceide Lemos de Souza Lima/Psicoterapeuta de casal, família e individual- Abordagem Sistêmica

32219420/91264840

  • Paula Vaz Viana/Psicoterapeuta de casal, família e individual – Abordagem Sistêmica

 

 



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