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Os desafios do terapeuta de família em casos de abuso sexual

 

Tânia Nogueira

O que caracteriza o abuso sexual? 

Didaticamente  falando o “abuso sexual é definido como uma situação em que uma criança ou adolescente é usado (a) para gratificação sexual de um adulto ou de um adolescente mais velho”. O abuso sexual pode ser  sem contato físico (apresentação de imagens, exibicionismo, voyeurismo) ou com contato físico (carícias nos órgãos genitais, tentativas de estimulação ou relações sexuais, sex oral, penetração vaginal e anal)

A descrição acima, entretanto, não revela a complexidade da situação de abuso sexual, tanto para quem sofre o abuso, para a família quanto para os profissionais que lidam com o caso.   Para atender às demandas de prevenção e tratamento, é necessário, o trabalho integrado de uma rede de especialistas nas áreas da saúde (médicos, psicólogos, assistentes socais, enfermeiros), da justiça e da escola (diretores, professores, supervisores).

Apesar da importância do trabalho multidisciplinar, Vamos abordar apenas aspectos referentes à terapia  de famílias em casos de abuso sexual.

Do ponto de vista psicológico trata-se de uma situação extremamente complexa que envolve aspectos éticos, legais, clínicos e sociais.  O atendimento de família em casos de abuso sexual é, portanto, um desafio para o terapeuta de família.

O primeiro desafio é não permitir que suas crenças e valores interfiram no atendimento. O terapeuta deve compreender os fatores particulares de cada situação, deixando de lado, ideias pré-concebidas e as indignações pessoais, para não julgar e assim, poder ter uma atuação ética e eficaz.

É desafio, também, estabelecer uma relação de confiança com o paciente que foi abusado. Uma criança ou adolescente arredio e que foi ferido, na maioria das vezes por alguém “acima de qualquer suspeita”, Neste caso, o objetivo específico da terapia é ajuda-lo a  ressignificar o acontecimento, a minimizar seu sofrimento e, às vezes, a ajuda-lo a resolver o conflito em relação à lealdade com o agressor. As intervenções devem ser pensadas e analisadas com tato, sensibilidade e de forma ética.

Outro desafio é o trabalho com uma família que chega esfacelada pela dor, pela culpa e na maioria dos casos, pela vergonha. Tanto quando a família procura espontaneamente o terapeuta quanto quando ela chega por orientação de outros profissionais, ela traz um misto  de revolta, e medo, mas, também a esperança de poder se reorganizarem daí pra frente.

Cabe ao terapeuta identificar, inicialmente, qual é a dinâmica da família, como as relações se estabelecem no sistema como um todo e entre os membros. Quais são os subsistemas, como o poder se estabelece e o papel de cada um na manutenção e/ou delação do abuso sexual.

O objetivo da terapia com a família é o de restabelecer a rede de comunicação, ou seja, os membros da família devem reconhecer o papeis, funções e a responsabilidade de cada um. É importante, também, que os membros da família aprendam a negociarem o uso do poder.

É papel do terapeuta, também, ser o facilitador no rompimento da cumplicidade, muitas vezes, silenciosa entre os membros da família e de estabelecer um espaço de reflexão, em que a família encontre soluções para os impasses e conflitos ao invés de negar as consequências da situação de abuso sexual.

De qualquer forma, é mais um desafio, o terapeuta tem que ter habilidade para lidar com a resistência familiar, principalmente do abusador e saber lidar com o possível abandono do atendimento, o que gera frustração e sensação de impotência.

Em síntese, o terapeuta de família em casos de abuso sexual deve ter competência para lidar com estes e outros desafios que vai encontrar neste tipo de atendimento tão complexo, mas, atualmente, quase que rotineiro.

 

Textos de referência

  • Violência sexual intrafamiliar – Karine Pezzini e Dulce Grasel Zacharias

https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/boletimsis/article/view/16113/4017. Pesquisado em 23 de maio de 2018.

  • Violência e abuso sexual na família – Maria de Fátima Araújo

Psicol. estud. vol.7 no.2 Maringá Jul./Dec. 2002 http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722002000200002. Pesquisado em 23 de maio de2018.

  • Famílias e situações de ofensa sexual – Maria Cristina Vilanez Werner;

in Manual de Terapia familiar. Luiz Carlos Osorio, Maria Elizabeth \Pascual do Valle e colaboradores. Porto Alegre: Artmed, 2009.

  • A dinâmica do abuso sexual incestuoso á luz dos conceitos da teoria sistêmica – Maria Cristina Vilanez Werner;

in Terapia Familiar no Brasil na última década. Rosa Macedo. São Paulo: Roca, 2008.

 



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