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Quando a proteção dos pais… desprotege

Maria José Queiroz   

 

Num lugarejo não muito distante moravam um Rei e uma Rainha. Dizem que possuíam o “dom” de verem sempre o lado bom das coisas, sendo assim, sempre que alguém tinha um problema chamavam por eles. O Rei e a Rainha sempre conseguiam ver a “oportunidade” dentro de um problema… e não a “dificuldade”.

Com o passar do tempo, quiseram ter uma filha. Começaram então a pensar no nome… Deveria ser um nome que representasse o sentimento deles naquele momento. Optaram por ALEGRIA.

A gravidez logo aconteceu e os pais aguardavam ansiosos pela chegada.

Alegria foi um bebê tranqüilo, saudável e como o próprio nome nos dizia, cheio de ALEGRIA.

Os pais, cuidadosos que eram, resolveram colocá-la em uma REDOMA de vidro, assim nada de MAL poderia atingi-la.

ALEGRIA permaneceu tranquilamente ali por vários anos… Certo dia, no entanto, uma pedra acertou a REDOMA de vidro, quebrando-lhe uma parte.

ALEGRIA ao perceber aquilo começou a ficar curiosa, pensando no que teria do outro lado. Não contendo sua curiosidade, sem falar nada com ninguém, arriscou-se a ir sozinha para o outro lado, pois tudo parecia tão fascinante, tão diferente!!!

ALEGRIA assim como seus pais, também herdara o “dom” de ver somente o lado bom das pessoas e coisas. No entanto, pela pouca experiência que tinha; ALEGRIA ignorava o “perigo” quando ele existia, o que a tornara “vulnerável” e “frágil”. Certo é que ALEGRIA acabou conhecendo a TRISTEZA.

Os pais ao perceberem o sumiço da filha e ao reencontrá-la tão triste, se entristeceram também. Conta-se que perderam o “dom” de verem o lado bom das coisas e a oportunidade sempre presente de “aprendizado”. O lugarejo e o castelo onde moravam tornaram-se sombrios, com dias chuvosos e tristes a partir de então.

Certo dia, ALEGRIA ao reparar em uma florzinha que nascia em seu jardim, percebeu ali a beleza do “Divino” se manifestando e sentiu um brilho novamente em seus olhos, recomeçando a acreditar de novo na vida.

Os pais, atenciosos que eram, logo perceberam a mudança e mudaram também.

A ALEGRIA voltou para a vida deles e junto dela o “aprendizado”.

ALEGRIA aprendeu que  TRISTEZA e momentos difíceis também fazem parte da vida, mas que assim como tudo, não são para sempre, eles passam. ALEGRIA não aprendeu isso sozinha, seus pais aprenderam juntos. Todos compreenderam que nesses momentos difíceis, a “união” e o “amor” na família são essenciais até que a tristeza se aquiete e a alegria volte a reinar, pois na verdade ambas são necessárias para nosso crescimento.

Não haveria mais de colocar  a filha em uma REDOMA que tão facilmente a deixara em situação de risco e  perigo. Iriam sim a partir de agora, orientá-la, permitindo que ela descobrisse a si mesma e construísse a própria vida, sabendo sempre que estariam pronto a ajudá-la, se necessário.

 

Vivemos hoje um momento de extremos e que são igualmente perigosos. Se por um lado percebemos pais extremamente permissivos, por outro vemos pais que colocam os filhos em redomas superprotegendo-os, inclusive de si mesmos.

Em casos de extrema permissividade, os filhos se percebem desguarnecidos, uma vez que ficam soltos sem uma referência, sem limites necessários para um crescimento saudável, desenvolvendo assim dificuldades em lidar com frustrações e nãos. Algo tão natural e necessário de acontecer no decorrer da vida de qualquer  um de nós.

O outro extremo nos aponta o excesso de proteção: filhos criados em redomas, impossibilitados de manterem contato consigo mesmo e com a vida. Tornando-se presas fáceis (assim como a Alegria da Estória), pois não aprenderam a se defenderem, a cuidar de si mesmos. Mantendo uma dependência eterna de pais que em algum momento não estarão mais presentes.

Ambas as posturas se apresentam em nome de uma “boa intenção”, ou seja, serem bons pais, darem aos filhos tudo que não tiveram, ou melhor,  do que o tiveram. Tais posturas com certeza são necessárias, o problema está na dosagem, pois o mesmo remédio que cura pode torna-se o veneno que mata, depende da quantidade utilizada.

Sendo assim, o limite e a permissividade, o sim e o não, a proteção e o deixar ir, se fazem necessários e essenciais quando utilizados de maneira equilibrada, possibilitando a construção de seres humanos mais seguros, mais conhecedores de si mesmo,com maior discernimento e sabedoria em suas escolhas.

 

Maria José Queiroz

Psicóloga / Psicopedagoga

(31) 98681-7946

 

 



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