logo

Recordações: O amor em rima com o sofrimento

imagem de Ronny Overhad por pixabay
Texto: Tânia Nogueira

Todas nós, alunas do Colégio Municipal de Belo Horizonte, nos últimos anos da década de 1960, tivemos um álbum de recordações. Neste escreviam nossas melhores amigas. Eram poesias, poemas, frases, etc.

 Há muito tempo não relia meu álbum. Resolvi procurá-lo, entre meus guardados, pois buscava inspiração para falar de amor. Imaginei que poderia usá-lo para entender como nós, adolescentes, naquela época, concebíamos o amor.  Mas, veio algo surpreendente: a maioria dos textos não falava de amor. Falavam do mar, da amizade, da mocidade, de uma boneca de pano, de sonhos, da primavera, da neve, do tempo, da menina e moça (Machado de Assis), da felicidade.

O que pensar? Aos quinze anos, as meninas daquela época não se preocupavam com o amor?! Talvez, de alguma forma, falar em amor fosse um tabu. O amor era visto de forma ambivalente: O AMOR era desejado, mas era, também, ameaçador. O que encontrei nas poucas falas de minhas amigas?

 “Amo-te, eis a verdade.

E para que a ocultar.

Embora tu me desprezes.

Hei de sempre te amar….

Passo os dias a esperar e esperando algum dia.

Tu me haverás de amar’ (A alguém).

Não devo amá-lo e amo-o com loucura.

Quero esquecê-lo e traga-o na lembrança.

Ai, quem me livra desse mal, sem cura.

A que destino trágico me lança. (Suplício Eterno).

Amor de estudante.

 É como ave ferida.

Pelo ar derrama o sangue.

 Chega ao chão, perde a vida” (Amor de estudante).

E agora…

Estenda-me tua mão pela última vez

Desta emoção que tu bem vês

De meus dedos roçando-se aos teu

E os meus olhos chorando ao te dizer

Adeus (Fim de romance).

Só guardado ficou-me, aqui no peito

Saudade ou maldição dos teus amores! (Teu nome).

“- Amas?

– Não sei, mas no peito sinto

– Sofres?

– Talvez, quando ele me aparece

E a luz do teu olhar não me rodeia” (Dúvida cruel).

“O amor é o arder que não se sente.

É ferida que dói e não tem cura

É febre, que no peito faz secura

É mal que as forças tira de repente” (não sabíamos, mas este é um verso sobre o amor baseado em um texto de Camões)

O que se observa é que o amor estava diretamente ligado ao sofrimento. Penso que, muitas de nós, adolescentes, naquela época, acreditávamos que amar é sofrer e levamos isto pela vida adiante. Apesar de que, também, ouvíamos Roberto Carlos dizendo: “Como é grande o meu amor por você…” (1967).

 E fomos para a vida adulta com  a ambiguidade entre o medo de sofrer por amor e a busca do prazer através do amor. E, assim, cada uma de nós seguiu seu caminho.

  • Este texto foi inicialmente publicado em junho de 2015. Para esta edição foi feita uma revisão e alguns tópicos acrescentados.


Deixe uma resposta